Paraísos Sitiados: Como o Crime Organizado Transformou Destinos Turísticos do Nordeste em Território de Facções
Coqueiros, águas mornas e uma beleza natural estonteante. Essa é a imagem que vende alguns dos destinos turísticos mais cobiçados do Nordeste. Mas por trás dos cartões-postais de Porto de Galinhas (PE), Pipa (RN) e Jericoacoara (CE), uma realidade sombria se instalou. O poder paralelo de facções criminosas domina a vida local com tráfico de drogas à luz do dia, vigilância constante e uma violência brutal, convenientemente escondida dos olhos dos turistas que movimentam a economia.
Uma extensa reportagem da BBC News Brasil revelou como esses três paraísos litorâneos operam sob uma lógica similar: as facções impõem “leis” para coibir crimes como roubos a visitantes, garantindo a tranquilidade necessária para proteger seu principal negócio, o tráfico. Para os moradores, no entanto, a paz é uma ilusão. Eles convivem diariamente com o medo, as ameaças e a crueldade de um Estado paralelo que julga, pune e executa.
A Lógica do Negócio: Por Que os “Paraísos”?
O processo de expansão de facções antes restritas a grandes centros urbanos encontrou nesses destinos um terreno fértil. A explicação, segundo autoridades e pesquisadores, reside em uma combinação de fatores: a alta concentração de renda e um fluxo constante de turistas com alto poder aquisitivo, muitos em busca de festas e do consumo recreativo de drogas. “São como filiais do negócio de drogas”, resumiu à BBC o promotor de Justiça Eduardo Leal dos Santos, de Ipojuca (PE).
Essas vilas turísticas, com grande movimento financeiro, mas com estrutura de cidade pequena e pouca presença do poder público, tornaram-se alvos estratégicos. A escala do lucro é impressionante: uma única caderneta apreendida com um traficante em Porto de Galinhas indicava uma movimentação de quase R$ 10 milhões por ano. Para as facções, controlar esses territórios é garantir um mercado consumidor cativo e altamente lucrativo.
A Paz Armada: “Leis” e Violência Longe dos Olhos do Turista
Para manter o negócio funcionando sem atrair a atenção excessiva da polícia, as facções — como o Sindicato do Crime em Pipa, o Comando Vermelho em Jericoacoara e o Trem Bala em Porto de Galinhas — impõem um rígido código de conduta. Roubos, brigas e outros crimes que possam assustar os turistas são proibidos e severamente punidos pelo “tribunal do crime”. Disputas entre vizinhos, dívidas e até som alto devem passar pelo crivo dos líderes locais.
Essa fachada de ordem, no entanto, esconde uma violência extrema. Moradores relataram casos de tortura e decapitações para quem descumpre as regras. Em Porto de Galinhas, a facção instalou câmeras para monitorar as comunidades e agentes públicos precisam se identificar para entrar. “É normalizado. Você sabe sempre quem é o olheiro, o pistoleiro ou o gerente de boca, e interage com eles todos os dias”, contou um morador à reportagem.
O Vácuo do Estado e o Alerta para João Pessoa
A ascensão do crime organizado nesses locais é um sintoma direto do vácuo deixado pelo Estado. O caso de Ipojuca, cidade de Porto de Galinhas, é emblemático: apesar de ter o maior PIB per capita de Pernambuco, impulsionado pelo turismo e pelo Porto de Suape, a cidade amarga baixos índices sociais, como na educação. Sem perspectivas de futuro, os jovens se tornam mão de obra barata e descartável para o tráfico.
O alerta ecoa com urgência em João Pessoa. A capital paraibana, que se consolida como a nova “queridinha” do turismo no Nordeste e atrai um fluxo crescente de novos moradores, já apresenta sinais preocupantes de que também foi “descoberta” pelo crime organizado. O modelo visto nos paraísos vizinhos — um mercado consumidor em expansão com uma estrutura de segurança pública ainda em adaptação — serve como um aviso contundente. Ignorar a expansão das facções ao redor é permitir que a mesma lógica se instale aqui, transformando o potencial turístico em um futuro de controle paralelo e violência velada. A questão para a Paraíba não é *se* isso pode acontecer, mas o que está sendo feito, *agora*, para impedir que aconteça.
Da redação do Movimento PB, com informações da BBC News Brasil
Redação do Movimento PB [GME-GOO-30072025-1116-15P]
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