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Dívida Recorde e Desemprego em Queda: A Contradição que Aflige o Brasil

Dívida Recorde e Desemprego em Queda: A Contradição que Aflige o Brasil
Dívida Recorde e Desemprego em Queda: A Contradição que Aflige o Brasil

O Brasil vive um paradoxo econômico intrigante: enquanto as taxas de desemprego atingem patamares historicamente baixos, o endividamento das famílias dispara, alcançando níveis alarmantes. Dados recentes do Banco Central, divulgados nesta semana de janeiro de 2026, revelam que quase metade da renda anual das famílias brasileiras, precisamente 49,8%, já está comprometida com dívidas, como financiamentos, empréstimos e, principalmente, o cartão de crédito. Esse é o maior índice registrado durante o governo Lula, aproximando-se do recorde histórico de 49,9% atingido em julho de 2022, sob a gestão Bolsonaro.

A inadimplência acompanha essa escalada, com 6,9% das famílias em atraso no segmento de crédito livre em dezembro passado, um aumento de 1,7 ponto percentual em 12 meses. O comprometimento mensal da renda com o Sistema Financeiro Nacional se manteve em 29,3% entre outubro e novembro, um recorde na série histórica.

Juros Altos: O Vilão Silencioso da Economia Doméstica

Especialistas apontam a taxa básica de juros, a Selic, como a principal força motriz por trás desse cenário. Fixada em 15% ao ano, a Selic está no seu maior nível desde julho de 2006, encarecendo drasticamente o crédito. “Com uma taxa de juros no maior patamar em 20 anos, era de se esperar que isso produzisse efeitos adversos em diversos setores, inclusive nas condições de crédito”, explica Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Para as operações de crédito livre às famílias, a situação é ainda mais crítica, com juros médios ultrapassando 60% ao ano – um patamar não visto desde 2017. Mesmo com o custo elevado, o saldo das operações de crédito para pessoas físicas cresceu 13,2% em 2025, somando R$ 2,5 trilhões, evidenciando a crescente dependência do crédito para o dia a dia.

Cartão de Crédito: A Rota de Fuga (e Perigo)

O cartão de crédito emerge como o principal motor desse endividamento. O volume devido nessa modalidade subiu 17,1% em 2025. Bentes ressalta que essa expansão não reflete necessariamente um aumento no poder de compra ou nas vendas do comércio, mas sim uma tentativa desesperada das famílias de “mitigar os efeitos do desequilíbrio orçamentário”.

“O cartão de crédito não cresce por ter taxa atrativa, mas por ser o crédito mais acessível e cômodo para o consumidor no curto prazo, para tentar fechar o orçamento no fim do mês”, afirma o economista. Histórias como a da pensionista Maria das Graças Barros, de 64 anos, que usa o cartão para comprar material escolar para a bisneta e parcela tudo, e da vendedora Virgínia da Silva, de 22 anos, mãe solo que recorre ao crédito para “tudo” e eventualmente a empréstimos “por fora”, ilustram a dura realidade de muitos brasileiros.

A Tendências Consultoria adota uma metodologia mais abrangente e estima que o endividamento familiar já alcança 54% da renda, superando os números oficiais do Banco Central ao incluir parcelamentos de cartão em até dez vezes. “No fundo, o juro ficou mais alto e o prazo médio ficou menor. Isso explica o alto endividamento”, pontua Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria.

Luz no Fim do Túnel? Expectativas para 2026

Apesar do cenário desafiador, há uma expectativa de alívio para 2026. A projeção de início do ciclo de cortes da Selic a partir de março deve começar a surtir efeito na economia a partir de setembro, tornando o crédito mais barato e, consequentemente, aliviando o custo das dívidas.

Fábio Bentes sugere a avaliação de uma possível reedição do programa Desenrola, que, em sua primeira versão (2023-2024), ajudou a renegociar dívidas e minimizou o impacto do aperto monetário. Alessandra Ribeiro, por sua vez, vê o Crédito ao Trabalhador (consignado privado) ganhando força, oferecendo juros mais baixos e ajudando a acomodar o comprometimento de renda.

Outros fatores positivos incluem o aumento da renda disponível devido à ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e a continuidade de um mercado de trabalho, embora com tração menor, ainda positivo e com avanço da formalização, o que amplia o acesso a linhas de crédito mais vantajosas. A combinação desses elementos pode, enfim, trazer um respiro financeiro para as famílias brasileiras.

Da redação do Movimento PB.

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