“Não posso salvar Bolsonaro”: Paulinho da Força descarta anistia ampla e transforma projeto em “PL da Dosimetria”
Relator do texto sobre o 8 de Janeiro articula com Temer, Aécio Neves e o paraibano Hugo Motta uma mudança de rota: em vez de perdoar crimes, a proposta buscará reduzir penas para “pacificar o país”.
Em uma declaração que redefine os rumos do debate sobre os atos de 8 de Janeiro, o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do projeto de lei sobre o tema, descartou categoricamente a possibilidade de uma anistia “ampla e irrestrita” para os envolvidos. Mais do que isso, ele enviou um recado direto à oposição bolsonarista ao afirmar que não tem condições de usar a proposta para “salvar individualmente” o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
A posição firme do relator veio acompanhada de uma manobra política de grande impacto. Após uma reunião estratégica na quinta-feira (18) com os ex-presidentes Michel Temer (MDB) e o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), e com a participação virtual do presidente da Câmara, o paraibano Hugo Motta (Republicanos-PB), o projeto sofreu uma mudança conceitual profunda. A proposta, que era conhecida como “PL da Anistia”, agora será rebatizada para “PL da Dosimetria”. A alteração é mais do que cosmética: o objetivo deixa de ser o perdão dos crimes para se concentrar na possibilidade de reduzir as penas dos condenados.
Segundo Paulinho da Força, em entrevista ao jornal O Globo nesta sexta-feira (19), a ideia de um perdão total foi “superada” durante as negociações. “Meu principal trabalho será construir um projeto nem à esquerda, nem à direita, mas que pacifique o país”, afirmou, sinalizando a busca por um texto de centro, que possa ser digerido tanto pela base governista quanto pela oposição mais moderada. “Não vou me alinhar de forma automática a nenhum dos lados. O texto só vai ganhar forma depois de ouvir todo mundo”, declarou.
A pressão sobre o relator é imensa, especialmente por parte dos aliados do ex-presidente. Paulinho admitiu que tem sido procurado por bolsonaristas que exigem a inclusão de Bolsonaro no perdão, mas sua resposta tem sido negativa. “Não tenho como salvá-lo individualmente”, cravou. A estratégia, segundo ele, é evitar um confronto direto com outras instituições, principalmente o Judiciário. “Quero agradar todo mundo, inclusive o Supremo”, disse, em uma fala que revela a complexa engenharia política por trás do projeto.
A mudança de “anistia” para “dosimetria” é, na prática, um reconhecimento da realidade política e jurídica do país. A nova nomenclatura, classificada por Aécio Neves como mais “adequada”, e o novo escopo, chamado por Michel Temer de um “pacto republicano”, representam a admissão de que uma anistia completa seria barrada pelo STF e geraria uma crise institucional de proporções imprevisíveis. A articulação liderada por Paulinho da Força é uma aposta no pragmatismo: abdica-se do objetivo máximo da oposição (a anistia) em troca de uma meta mais factível (a redução de penas), em uma tentativa de construir uma ponte em um Brasil ainda profundamente dividido pelas feridas do 8 de Janeiro.
Redação do Movimento PB [NMG-OGO-19092025-N8P2Q5-13P]
