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Como a ostentação do crime nas redes sociais influencia jovens a ingressarem no tráfico de drogas

Como a ostentação do crime nas redes sociais influencia jovens a ingressarem no tráfico de drogas

A ostentação do crime nas redes impulsiona jovens ao tráfico; especialistas alertam para os riscos e a necessidade de alternativas sociais.

Menos de uma semana após uma megaoperação policial no Rio de Janeiro, que resultou na morte de mais de 120 pessoas, a Polícia Civil divulgou um perfil detalhado dos mortos, incluindo imagens de suas postagens em redes sociais. Entre as publicações encontradas, figuravam fotos de armas, drogas, dinheiro e símbolos ligados a facções criminosas, como o Comando Vermelho. Um caso que chamou atenção foi o de um adolescente de 14 anos, cuja conta nas redes mostrava claramente a exposição de objetos que aparentavam ser fuzis.

A cultura da ostentação e o apelo das redes sociais

Especialistas entrevistados pela BBC News Brasil apontam que a exposição das atividades do tráfico nas redes sociais não é um fenômeno isolado, mas sim um componente central de uma cultura de ostentação. Jovens em busca de pertencimento e reconhecimento social acabam seduzidos pela representação de poder que essas imagens transmitem, mesmo que não dominem efetivamente o uso das armas ou do crime em si.

A promotora de Justiça Gabriela Lusquiños destaca que as redes uniformizam esse imaginário, ultrapassando as fronteiras das grandes cidades e alcançando até regiões do interior. A ausência de figuras paternas ou de conexões afetivas sólidas abre espaço para que comunidades virtuais supram a necessidade de afeto e status desses jovens, que muitas vezes veem nas organizações criminosas uma forma de alcançar visibilidade social.

O papel das plataformas digitais na propagação e no combate

Apesar das políticas públicas e diretrizes das plataformas digitais, o conteúdo ofensivo circula com facilidade e frequência nas redes. Empresas como TikTok e Meta afirmam investir em moderação combinada de inteligência artificial e revisão humana para remoção de material que viole suas normas. Contudo, conforme explica a juíza Vanessa Cavalieri, a falta de uma comunicação imediata entre as plataformas e as autoridades contribui para que esses conteúdos prosperem e ainda sejam utilizados como provas em casos judiciais.

A Advocacia-Geral da União (AGU) alerta que a circulação desse tipo de conteúdo em redes sociais configura violação da legislação brasileira e pode acarretar responsabilização das plataformas, especialmente quando envolve menores de idade. O Ministério dos Direitos Humanos enfatiza a proteção integral das crianças e adolescentes, ressaltando a necessidade da remoção e denúncia de materiais que promovam associação de jovens à criminalidade.

Impactos das estratégias repressivas e caminhos para a prevenção

Estudos internacionais, como o publicado na revista Science em 2023, indicam que a repressão policial isolada em organizações criminosas não altera sua estrutura se não for acompanhada pela redução efetiva do recrutamento de novos membros. A rotatividade e reposição rápida dos integrantes mantêm o ciclo de violência e criminalidade.

Para interferir nesse ciclo, o estudo aponta para a urgência em oferecer oportunidades educacionais e profissionais que compitam com os benefícios imediatos que os cartéis aparentam oferecer aos jovens. Isso implica em políticas integradas que atuem sobre fatores sociais, econômicos e culturais que moldam o ingresso e permanência de jovens no tráfico.

Segundo a juíza, as grandes empresas de tecnologia deveriam notificar as autoridades sempre que imagens de menores de idade portando armas forem divulgadas nas redes sociais.

Reflexões finais

A ostentação do crime nas redes sociais é um fenômeno complexo que opera tanto como forma de afirmação social quanto como ferramenta de recrutamento. Enquanto as plataformas digitais ainda enfrentam desafios para controlar esse tipo de conteúdo, a sociedade e o Estado precisam avançar em políticas que ofereçam alternativas reais para esses jovens, garantindo suporte emocional, educacional e profissional que desconstruam o fascínio por esse universo.

O debate sobre o papel das redes sociais na propagação dessas imagens e a necessidade de ações coordenadas para interromper o ciclo do tráfico evidencia que não há solução simples, mas sim a obrigação coletiva de construir caminhos que promovam inclusão e proteção, especialmente para as crianças e adolescentes mais vulneráveis.


[Da redação do Movimento PB]
MPB-BBC-12112025-OSRTJYA3V9