PF retém dados cruciais de 52 celulares do Banco Master, desafiando o STF

A Polícia Federal (PF) tem sido alvo de questionamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) por, até o momento, não ter compartilhado o conteúdo de 52 aparelhos celulares apreendidos durante a Operação Compliance Zero. Deflagrada em 18 de novembro de 2025, a investigação mira um esquema bilionário de fraudes financeiras no mercado de capitais, com o Banco Master no epicentro. Apesar de muitos dispositivos terem suas senhas liberadas pelos proprietários, o STF, responsável por relatar o caso, permanece sem acesso a informações vitais após mais de três meses de apuração.
O Esquema Bilionário e a Demora no Acesso aos Dados
A Compliance Zero foi iniciada a pedido do Ministério Público Federal, que levantou indícios de fabricação e venda de títulos de crédito falsos, além da circulação de “ativos podres” para ocultar rombos financeiros no Sistema Financeiro Nacional. O Banco Master, gestores, executivos e empresários ligados a fundos de investimentos como Tirreno e Cartos estão no centro das investigações. O Banco Central, que demorou a atuar no caso, já decretou a liquidação extrajudicial do Master, do Will Bank e do Banco Pleno, instituições ligadas ao grupo.
A apreensão de 52 celulares é um ponto crucial. Desses, quatro pertenciam a ex-executivos do BRB (Banco de Brasília) e foram entregues com senhas, tornando seu conteúdo imediatamente acessível à PF desde novembro de 2025. O aparelho de Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB, é de particular interesse, contendo mensagens de Daniel Vorcaro, fundador do Master, detalhando conversas com autoridades federais, incluindo o presidente Lula, sobre a situação do banco.
Contudo, nem o ministro Dias Toffoli, relator do caso no STF até 12 de fevereiro de 2026, nem seu sucessor, André Mendonça, tiveram acesso a esses dados. A Polícia Federal prometeu um relatório a Mendonça para 23 de fevereiro de 2026, mas a abrangência do material, especialmente a inclusão de transcrições de mensagens dos celulares, permanece incerta.
O Relatório da PF e a Repreensão do STF
A tensão entre a PF e o STF escalou com a entrega de um relatório de 200 páginas pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ao presidente da Corte, Edson Fachin. Este documento detalhava possíveis contatos de Dias Toffoli com pessoas ligadas ao Banco Master, sem, contudo, comprovar ilícitos. O relatório foi preparado com o conhecimento do presidente Lula, que mantém uma relação tensa com Toffoli.
Em uma reunião reservada em 12 de fevereiro, dez ministros do STF rejeitaram unanimemente o documento, classificando-o como “ilegal” e um “lixo jurídico”, nas palavras do ministro Flávio Dino. O Supremo considerou que a PF havia extrapolado suas funções, configurando uma investigação indevida contra uma autoridade com foro por prerrogativa de função. A lei brasileira exige autorização judicial expressa para investigar autoridades, mesmo em achados fortuitos.
Andrei Rodrigues argumentou no relatório que a proximidade entre Toffoli e Daniel Vorcaro – citando a ida do ministro a um evento patrocinado pelo Banco Master em Londres em abril de 2024 – impediria Toffoli de atuar no caso. No entanto, o próprio diretor da PF também esteve presente no evento, fato omitido no documento. Apesar da grave transgressão, os ministros decidiram não aplicar punições a Andrei Rodrigues.
As Conexões do Caso e as Duas Fases da Operação
As investigações da Compliance Zero revelaram uma teia de conexões:
- Família Toffoli e Fabiano Zettel: Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, comprou em 2021 uma participação no Tayaya Resort, empreendimento hoteleiro da família de Dias Toffoli no Paraná. Toffoli declarou a legalidade e regularidade fiscal da operação, e Zettel deixou o empreendimento antes do escândalo eclodir.
- Mulher de Alexandre de Moraes e Banco Master: Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, firmou um contrato de R$ 131 milhões em três anos com o Banco Master em 2024. A Procuradoria-Geral da República arquivou um pedido de investigação contra Moraes, afirmando que o contrato não era ilícito.
- Moraes e Banco Central: Moraes teve diversas conversas com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, ao longo de 2025. Galípolo negou qualquer pressão, e Lula, ao ser informado do teor de uma mensagem de Moraes, recomendou que o chefe do BC a guardasse. O conteúdo permanece sigiloso.
É importante ressaltar que Dias Toffoli e Alexandre de Moraes não são investigados pela Operação Compliance Zero.
Fases da Operação Compliance Zero:
A operação já teve duas fases, com foco em gestão fraudulenta, organização criminosa, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro:
- Fase 1 (18 de novembro de 2025): Mirou a venda de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito falsas do Master ao BRB. Houve 7 prisões (5 preventivas, 2 temporárias) e 3 afastamentos de cargos no BRB. Todos os presos foram soltos. Bens como aeronave (R$ 200 milhões), obras de arte, veículos, relógios, joias e dinheiro em espécie foram apreendidos, além de 13 celulares.
- Fase 2 (14 de janeiro de 2026): Focou em endereços ligados a Daniel Vorcaro e seus parentes, com 42 mandados de busca e apreensão. Foram presos temporariamente os empresários Nelson Tanure e Fabiano Zettel. Nesta fase, 39 celulares foram apreendidos, elevando o total para 52. Houve sequestro e bloqueio de bens e valores que superam R$ 5,7 bilhões.
O material mais sensível do caso, contido nos 52 celulares, ainda não foi revelado por completo. Sabe-se que há citações a outras autoridades com prerrogativa de foro, o que complica o envio da apuração para a primeira instância.
Depoimentos cruciais de Paulo Henrique Costa, Daniel Vorcaro e Ailton de Aquino (diretor de Fiscalização do BC) foram realizados em 30 de dezembro de 2025, com destaque para a acareação entre Costa e Vorcaro, conduzida pela delegada Janaina Pereira Lima Palazzo na sede do STF.
O Que Você Precisa Saber
O que é a Operação Compliance Zero e qual seu objetivo principal?
A Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025, é uma investigação da Polícia Federal e do Banco Central sobre um esquema bilionário de fraudes financeiras no mercado de capitais, envolvendo o Banco Master. Seu objetivo é apurar crimes como gestão fraudulenta, organização criminosa, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro, focando na fabricação e venda de títulos de crédito falsos e ocultação de prejuízos.
Por que a Polícia Federal retém o conteúdo dos celulares apreendidos do STF?
A Polícia Federal apreendeu 52 celulares durante a operação, muitos com senhas liberadas pelos proprietários. No entanto, a PF não compartilhou o conteúdo desses aparelhos com o Supremo Tribunal Federal, que é o relator do caso. A justificativa não foi publicamente detalhada, mas a retenção levanta preocupações sobre a transparência e a celeridade da investigação, especialmente porque os dados podem conter informações cruciais para o avanço do processo.
Qual foi a controvérsia em torno do relatório da PF sobre Dias Toffoli?
A PF entregou um relatório ao STF detalhando supostos contatos entre o ministro Dias Toffoli e pessoas ligadas ao Banco Master, sem comprovar ilícitos. O Supremo rejeitou o documento por unanimidade, classificando-o como “ilegal” e “lixo jurídico”. Os ministros entenderam que a PF havia extrapolado suas funções, realizando uma investigação indevida contra uma autoridade com foro privilegiado sem a devida autorização judicial, o que é uma violação da lei.
