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A Bola na Trave e o Gol que a Paraíba Pode Fazer – Percival Henriques

Por Percival Henriques

Amir Caldeira confessou à Revista Pesquisa FAPESP algo que todo cientista brasileiro conhece bem: a sensação agridoce de ver o próprio trabalho fundamentar uma descoberta premiada com o Nobel enquanto permanece do lado de fora da cerimônia em Estocolmo. A bola, disse ele com a elegância de quem já fez as pazes com a física e com a vida, bateu na trave.

Pois bem. A trave existe para ser superada.

O físico carioca, que se aposentou da Unicamp em agosto passado mas continua ativo como pesquisador sênior, dedicou mais de quatro décadas ao estudo da dissipação quântica. Em 1981, ao lado do britânico Anthony Leggett (que levaria o Nobel de 2003), publicou o artigo que demonstrava ser possível observar o tunelamento quântico em circuitos supercondutores macroscópicos. Um trabalho teórico que, nas palavras do próprio Caldeira, não tinha nenhum apelo aplicado. Era apenas uma nova linha de pesquisa. Um exercício de imaginação rigorosa.

Quarenta e quatro anos depois, esse exercício rendeu o Nobel de 2025 aos experimentalistas que comprovaram suas previsões. E rendeu também uma citação expressa da Real Academia de Ciências da Suécia ao artigo Caldeira-Leggett. Mais de 6.200 citações na literatura científica. Uma influência que atravessa gerações de pesquisadores.

Mas o que mais me chamou a atenção na entrevista não foi a história do Nobel quase conquistado. Foi outra coisa. Uma crítica precisa e demolidora ao estado atual do investimento brasileiro em tecnologias quânticas.

O governo federal, lembra Caldeira, anunciou R$ 5 bilhões para a área até 2034. Parece muito. Não é. São aproximadamente US$ 1 bilhão em uma década. A China investe trinta vezes mais. Os Estados Unidos, dez vezes. O valor brasileiro, argumenta o físico, serve para fazer pesquisa básica e montar laboratórios. Para desenvolvimento tecnológico de verdade, seria preciso multiplicar por dez.

E então Caldeira oferece uma receita que deveria estar emoldurada em todos os gabinetes de Brasília: mandar nossos alunos para se aperfeiçoar no exterior, mas também escolher a dedo pessoas de fora para vir para cá. Foi assim que a China fez. Primeiro exportou cérebros para aprender. Depois importou cérebros para ensinar. E hoje, com a situação política dos Estados Unidos, vai levar ainda mais talentos.

Aqui chegamos ao ponto que me interessa particularmente.

Amir Caldeira acaba de se aposentar. Continua ativo, sim, mas em que condições? A Unicamp lhe oferece uma sala e o título de pesquisador sênior. Honroso, sem dúvida. Mas será suficiente para alguém cujo trabalho ajudou a fundamentar um Prêmio Nobel?

A Paraíba, como alguns leitores sabem, está se preparando para receber infraestrutura de computação quântica. O Centro de Pesquisa em Tecnologias Quânticas do Nordeste, com proposta já encaminhada ao BNDES e à FINEP, pretende fazer exatamente o que Caldeira recomenda: atrair pesquisadores de calibre internacional para uma região que historicamente foi relegada à periferia da ciência brasileira.

Seria presunção demais imaginar que um físico do porte de Amir Caldeira pudesse se interessar em trocar Campinas por Campina Grande? Por João Pessoa? Por um projeto nascente em uma região que ele talvez conheça apenas de passagem?

Talvez. Mas a presunção, às vezes, é o primeiro passo da visão.

O próprio Caldeira nos ensina, na entrevista, que não devemos ser assolados pelo imediatismo e pelo pessimismo. O Sirius, lembra ele, era impensável cinquenta anos atrás. A Embraer também. São projetos de médio e longo prazo que exigiram foco, conhecimento e, sobretudo, a coragem de recrutar as pessoas certas.

Ora, a Paraíba foi pioneira na computação no Nordeste. Campina Grande abrigou, nos anos 1970, os primeiros computadores da região e formou gerações de engenheiros e cientistas da computação. Entre 2013 e 2018, organizamos ali as primeiras escolas de computação quântica do Nordeste brasileiro, trazendo pesquisadores de todo o mundo para um diálogo que parecia, naquela época, quase futurista.

O futuro chegou.

E ele precisa de gente como Amir Caldeira. Não apenas de seu prestígio, mas de sua experiência, de sua rede internacional de contatos, de sua capacidade de formar jovens pesquisadores. Da sabedoria de quem viu a bola bater na trave e sabe exatamente o que é preciso fazer para que ela entre.

Pergunto-me, então, se não seria o caso de fazermos um convite formal. Não uma homenagem protocolar, dessas que rendem aplausos e são esquecidas na semana seguinte. Um convite de verdade. Com laboratório, com equipe, com recursos para pesquisa. Com a possibilidade concreta de liderar um projeto que pode mudar a história científica do Nordeste.

Caldeira disse na entrevista que o físico tem de saber física, conhecer os fundamentos e os avanços recentes de sua área. Ele pode, mas não precisa ser empreendedor. O que precisa, se optar pelo desenvolvimento tecnológico, é se juntar a alguém que entenda de fato desse processo.

Pois bem. Entendemos do processo. Sabemos que a computação quântica não é apenas uma promessa distante, mas uma realidade que já está sendo construída em laboratórios ao redor do mundo. Sabemos também que o Brasil corre o risco de ficar para trás se não agir com inteligência estratégica.

A Paraíba pode ser parte dessa inteligência.

E Amir Caldeira, se aceitar o convite, pode ser parte da Paraíba.

A bola bateu na trave em Estocolmo. Mas o campeonato não acabou. E há outros gols a serem feitos, em campos que talvez o físico carioca ainda não tenha imaginado.

Campina Grande, por exemplo, fica a apenas duas horas de voo de São Paulo. O clima é ameno. A universidade é excelente. E a vontade de fazer diferente é, aqui, quase uma tradição.

Que venha, então, o professor Caldeira. Que venha com suas ideias, suas críticas, sua experiência de quatro décadas. Que venha nos ensinar a construir o que ainda não existe.

Afinal, como ele mesmo disse: o que daria para fazer no Brasil? Sinceramente, o que quisermos.

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Percival Henriques é físico, jurista, conselheiro do CGI.br e presidente da ANID.