CiênciasTecnologia

Cabral no Rio Grande do Norte? Estudo com participação de secretário da Paraíba usa física e forças de Coriolis para desafiar história oficial

Cabral no Rio Grande do Norte? Estudo com participação de secretário da Paraíba usa física e forças de Coriolis para desafiar história oficial

Pesquisa publicada pela Universidade de Cambridge, coassinada pelo secretário de Ciência e Tecnologia da Paraíba, Cláudio Furtado, aponta que a frota portuguesa teria desembarcado no litoral potiguar, e não na Bahia.

Uma nova pesquisa acadêmica, publicada no prestigiado Journal of Navigation da Universidade de Cambridge, reacendeu o debate sobre o local exato da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil em 1500. O estudo contesta a versão histórica consolidada de que a frota aportou em Porto Seguro (BA), indicando que o desembarque teria ocorrido, na verdade, no litoral do Rio Grande do Norte. A tese é defendida pelos físicos Carlos Chesman, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Cláudio Furtado, docente da UFPB e atual secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior da Paraíba.

Ilustração de Percival Henriques

A investigação cruza dados históricos da carta de Pero Vaz de Caminha com simulações modernas de física. Diferente de uma linha reta improvável, a rota real de cerca de 4 mil quilômetros desde Cabo Verde teria sido influenciada decisivamente pelas dinâmicas oceânicas. Para determinar a trajetória, os pesquisadores consideraram a ação das correntes marítimas e dos ventos, cujos movimentos são governados pelas forças de Coriolis — fenômeno físico ligado à rotação da Terra que desvia fluidos (ar e água) e que teria empurrado as caravelas mais ao norte do que se supunha.

O “verdadeiro” Monte Pascoal

Com base nesses cálculos e em expedicões de campo, os cientistas afirmam que o “grande monte, mui alto e redondo” descrito por Caminha corresponde, na geografia atual, ao monte Serra Verde, localizado no município de João Câmara (RN), e não ao Monte Pascoal baiano. Segundo o estudo, simulações visuais confirmam que essa elevação é visível a olho nu a cerca de 30 quilômetros da costa, distância compatível com os relatos de 1500.

O primeiro contato, protagonizado por Nicolau Coelho, teria ocorrido na praia de Zumbi, em Rio do Fogo. Posteriormente, devido a tempestades, a frota teria se deslocado para a praia do Marco, entre São Miguel do Gostoso e Pedra Grande. A tese reforça uma antiga suspeita levantada por intelectuais potiguares, como Luís da Câmara Cascudo, agora revisitada sob a ótica das ciências exatas.

Ceticismo e debate histórico

Apesar da robustez dos dados físicos, a proposta enfrenta resistência na comunidade de historiadores. Especialistas como Ana Hutz (PUC-SP) e Juliana Gesueli (PUC-Campinas) argumentam que a historiografia se baseia em um conjunto amplo de cartografias e não apenas na carta de Caminha. Para elas, embora o estudo abra janelas interdisciplinares interessantes, é necessário mais do que simulações de rota para alterar os livros didáticos.

Gesueli ressalta ainda que, independentemente do ponto exato do primeiro desembarque, o foco do ensino de história recai sobre a estrutura colonial que se estabeleceu décadas depois, majoritariamente em Pernambuco e na Bahia. Ainda assim, a pesquisa liderada por Chesman e pelo secretário paraibano Cláudio Furtado cumpre o papel de provocação científica, demonstrando que a tecnologia pode oferecer novas perspectivas sobre o passado.

Da redação do Movimento PB.

[MNG-OOG-27112025-F8X2C9P-V18.2]