Nos últimos anos, os Estados Unidos sofreram ataques cibernéticos devastadores, expondo uma infraestrutura despreparada para os desafios da era digital. A invasão chinesa patrocinada pelo Estado, conhecida como Salt Typhoon, comprometeu o Departamento do Tesouro e redes de telecomunicações essenciais, revelando os riscos sistêmicos de um ecossistema digital fragmentado e obsoleto.
Durante 18 meses, Salt Typhoon operou sem ser detectado dentro das redes da AT&T e Verizon, comprometendo registros de chamadas e gravações de milhões de americanos, incluindo o presidente Donald Trump e o vice-presidente JD Vance. Diante dessa realidade, os EUA precisam com urgência de uma Força Cibernética dedicada — um serviço independente e especializado capaz de unificar a defesa digital do país, combater agressores estrangeiros e restaurar a dissuasão estratégica.
Um País Sob Cerco — A Situação Fragmentada da Defesa Cibernética dos EUA
Em dezembro de 2024, hackers chineses realizaram um ataque audacioso contra o Departamento do Tesouro dos EUA, explorando vulnerabilidades em softwares de terceiros. A brecha comprometeu mais de 3.000 arquivos sensíveis, incluindo documentos do Comitê de Investimentos Estrangeiros nos EUA (CFIUS), fornecendo à China meios para contornar a fiscalização financeira americana e ameaçar a estabilidade econômica do país.
Atualmente, a defesa cibernética dos EUA é fragmentada entre diversas entidades, como o Comando Cibernético (CYBERCOM), NSA, Departamento de Segurança Interna, CISA, FBI e o setor privado. Essa estrutura resulta em lacunas burocráticas e paralisia inaceitável diante da urgência dos ataques modernos.
O Modelo da Força Espacial — Um Exemplo de Sucesso
Os EUA enfrentaram um dilema semelhante em 2019, quando criaram a Força Espacial para lidar com ameaças emergentes no espaço. Esse modelo funcionou e pode ser replicado na área cibernética.
Hoje, o país enfrenta uma escassez de 700.000 profissionais de cibersegurança, segundo o estudo do ISC². O ex-comandante do CYBERCOM, General Paul Nakasone, classificou a falta de talentos na área como “o maior desafio do país”.
A criação da Força Espacial mostrou que uma agência prestigiada e com uma missão clara pode atrair capital humano de elite. Uma Força Cibernética pode repetir esse sucesso, demonstrando um compromisso nacional sério e incentivando especialistas a contribuir para a segurança digital dos EUA.
Os Benefícios de uma Força Cibernética Definida
A unificação da defesa cibernética não é apenas uma questão administrativa, mas também operacional. A estrutura atual sofre com disputas jurisdicionais e falhas na troca de inteligência. Casos como SolarWinds, o ataque ao oleoduto Colonial Pipeline e a infiltração da Salt Typhoon demonstram a vulnerabilidade do país.
Cerca de 85% da infraestrutura crítica dos EUA — telecomunicações, energia, finanças, saúde e transporte — é de propriedade privada e está subprotegida. A aquisição de US$ 32 bilhões da Wiz pelo Google — o maior acordo de cibersegurança da história — evidencia a urgência do problema. O próprio Google declarou que os “riscos cibernéticos continuam a se acelerar” e que as abordagens tradicionais falharam em acompanhar essa evolução.
Mercados abertos, superfícies de ataque vastas e investimento cronicamente insuficiente tornaram os EUA estruturalmente vulneráveis na guerra cibernética. Uma autoridade centralizada, com capacidade de fiscalização e padronização, mudaria esse cenário, promovendo coordenação e compartilhamento de inteligência de maneira inatingível pelos sistemas atuais.
Uma Força Cibernética poderia contar com inteligência artificial para detectar ameaças em tempo real, computação quântica para criptografia inquebrável e unidades de resposta rápida, capazes de neutralizar ataques com a mesma agilidade que as forças militares respondem a ameaças físicas.
Restaurando a Dissuasão Cibernética Americana
Críticos podem se opor à criação de um novo ramo militar, citando custos e burocracia. No entanto, as ameaças cibernéticas representam um risco existencial. O ex-diretor da Agência de Inteligência de Defesa, Robert Ashley, alertou que “os inimigos costumavam nos respeitar, mas não nos temem mais”.
Precisamos mudar esse cálculo. A Força Cibernética representa uma mudança estratégica — substituindo uma defesa passiva por uma ofensiva assertiva. Trata-se de romper com a era da contenção e estabelecer uma doutrina de represália certa e decisiva. Dissuasão, hoje, não significa resistência, mas sim a certeza de que provocações serão respondidas com força desproporcional.
O Momento de Agir É Agora
Cada nova era da guerra exige inovação institucional. A Força Aérea surgiu após a Segunda Guerra Mundial, a Força Espacial diante das ameaças orbitais. O ciberespaço, possivelmente o domínio mais crítico, exige a mesma reimaginação.
Estamos em uma encruzilhada. Os EUA precisam migrar de uma postura defensiva para uma ofensiva, com responsabilização clara.
A próxima guerra já começou — não com mísseis, mas com malware. A fronteira digital americana precisa de uma nova classe de guerreiros. Uma Força Cibernética dedicada é o caminho para vencer essa guerra.
Andrew King é sócio-gerente da Bastille Ventures e fundador da Future Union. Ele assessora o Congresso, Comitê de China, Departamentos do Tesouro e Comércio, e a Casa Branca.
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Texto traduzido e adaptado pela nossa redação do artigo original:
https://www.newsweek.com/why-america-needs-dedicated-cyber-force-now-opinion-2053910