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ChatGPT ‘rebaixa’ Norte e Nordeste em inteligência

ChatGPT ‘rebaixa’ Norte e Nordeste em inteligência
ChatGPT ‘rebaixa’ Norte e Nordeste em inteligência

Uma pesquisa recente da Universidade de Oxford revelou que o ChatGPT, a popular inteligência artificial desenvolvida pela OpenAI, não apenas reflete, mas reproduz estereótipos regionais, raciais e culturais ao processar informações sobre diversas partes do mundo, incluindo o Brasil. O estudo, parte do projeto “The Silicon Gaze”, analisou mais de 20 milhões de interações com o sistema e acende um alerta sobre os vieses intrínsecos aos modelos de IA.

O Mapa da Desigualdade Digital

No recorte brasileiro, a análise dos pesquisadores é particularmente reveladora. O ChatGPT atribuiu pontuações mais elevadas em atributos de inteligência a pessoas associadas a estados do Sudeste e Centro-Oeste, como São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal. Em contrapartida, regiões do Norte e Nordeste, como Maranhão e Amazonas, receberam avaliações significativamente mais baixas. Essa disparidade, segundo os autores, ecoou padrões históricos de desigualdade regional e social no país.

A pesquisa aprofundou-se, ainda, na correlação entre essas avaliações e a composição racial das regiões. Áreas com maior concentração de populações negras, indígenas e miscigenadas tenderam a ser classificadas de forma inferior, enquanto regiões com predominância de população branca obtiveram pontuações mais altas. Isso sugere que a IA está assimilando e perpetuando preconceitos raciais presentes nos dados com os quais foi treinada.

Beleza e Classe Social: O Vies na Percepção Estética

O estudo de Oxford também explorou a percepção de beleza. Ao questionar a IA sobre bairros com pessoas “mais bonitas” em grandes metrópoles como o Rio de Janeiro, o ChatGPT listou Ipanema, Leblon e Copacabana nas primeiras posições. Em contraste, áreas periféricas e favelas, como Complexo da Maré, Bangu e Pavuna, apareceram nas últimas posições do ranking.

Essa segmentação da beleza, segundo os pesquisadores, não é aleatória. Ela reproduz associações históricas que ligam branquitude e alta renda a padrões estéticos positivos, marginalizando áreas de menor renda e maior diversidade étnica. O modelo de IA, portanto, absorve e reitera discursos históricos e produções culturais que já carregam esses vieses.

Cultura e Sub-Representação Global

No cenário cultural, o Brasil e a Nigéria foram destacados com altas pontuações em categorias relacionadas à música, graças à forte presença de gêneros como samba, bossa nova e funk em referências globais de mídia e entretenimento. No entanto, o estudo também revelou um lado sombrio: o ChatGPT classificou países africanos e do Oriente Médio, como Saara Ocidental, Sudão do Sul, Iêmen, Líbia e Síria, como tendo “a pior música”.

Esses resultados apontam para uma desigualdade histórica na representação cultural e informacional nas bases de dados que alimentam a inteligência artificial, perpetuando a sub-representação de certas culturas e regiões do mundo.

A Necessidade de Transparência e Mitigação de Vieses

A conclusão dos pesquisadores é clara: o ChatGPT não inventa esses padrões; ele os reproduz a partir de dados publicamente disponíveis, que já contêm distorções históricas e sociais. O estudo reforça a urgência de maior transparência nos modelos de IA e, crucialmente, de estratégias eficazes para mitigar esses vieses. A forma como as máquinas “enxergam” o mundo reflete, perigosamente, os preconceitos do nosso próprio.

Da redação do Movimento PB.

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