Centenário de Cony: o resgate necessário do mestre que desafiou o bom gosto

O legado de um cético entre o sagrado e o profano
Neste sábado, 14 de setembro, o Brasil celebra o centenário de nascimento de Carlos Heitor Cony, uma das vozes mais singulares e mordazes da literatura em língua portuguesa. Dono de uma prosa que transitava com fluidez entre o jornalismo diário e a ficção de fôlego, Cony deixou um conjunto de 18 romances que, embora aclamados, enfrentam hoje o desafio de furar as bolhas das listas de leitura compulsórias e algoritmos de recomendação.
Entre suas obras, uma em particular ostentava o título de “favorita” pelo próprio autor, apesar de sua natureza transgressora: “Pilatos” (1973). A história de Álvaro Picadura, que deambula pelo Rio de Janeiro carregando o próprio pênis decepado em um vidro de compota, era vista por Cony como sua única obra verdadeiramente original. Para ele, o livro era uma “molecagem suja”, uma agressão deliberada ao bom gosto que revelava a essência de sua liberdade criativa.
Do fenômeno de vendas ao boicote político
Embora “Pilatos” fosse o xodó do autor, o público consagrou “Quase Memória” (1995). O livro marcou o retorno de Cony à ficção após um hiato de 23 anos e tornou-se um fenômeno de vendas, narrando um acerto de contas emocional e lírico com a figura paterna. No entanto, a trajetória de Cony também foi marcada por confrontos ideológicos.
- Pessach: a Travessia (1967): Sua obra mais política, que retrata o ceticismo diante da luta armada e resultou em boicotes por parte de setores da esquerda na época.
- Informação ao Crucificado (1961): Uma novela autobiográfica que expõe o drama espiritual de um ex-seminarista e a crise de fé.
- O Ventre (1958): O debute influenciado pelo existencialismo de Sartre, mas com o DNA do subúrbio carioca.
Críticos e escritores contemporâneos, como Marcelo Moutinho, alertam para o risco de Cony se tornar um autor “eclipsado”. Em um mercado editorial focado em novidades efêmeras, a densidade de obras como “O Piano e a Orquestra” e “A Casa do Poeta Trágico” corre o risco de ficar restrita a círculos acadêmicos, perdendo o contato com o leitor comum que o autor tanto prezava.
A intimidade revelada no centenário
Para celebrar a data, o documentário “Cony, Retrato Íntimo”, dirigido por Marcos Ribeiro, promete trazer uma nova camada à compreensão do homem por trás da máquina de escrever. Composto por registros em Super 8 feitos pelo próprio escritor e sua viúva, Beatriz Lajta, o filme mostra um Cony longe do perfil blasé das redações: um homem que pintava, tocava piano e cultivava amizades profundas com figuras como Jânio de Freitas e Ruy Castro.
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Perguntas Frequentes
Q: Por onde começar a ler Carlos Heitor Cony?
A: Para quem busca emoção e uma narrativa fluida, “Quase Memória” é a porta de entrada ideal. Para quem prefere o Cony visceral e urbano, “O Ventre” ou “Pilatos” são escolhas fundamentais.
Q: Por que ele foi um autor polêmico?
A: Cony nunca se esquivou do conflito. Atacou a mediocridade literária, criticou dogmas religiosos e manteve uma postura cética tanto em relação à ditadura quanto à resistência armada, o que o tornou um alvo de críticas de diversos espectros políticos.
