Cultura

Vinil Verde: A Lenda Soviética Que Lançou Kleber Mendonça Filho ao Mundo

Vinil Verde: A Lenda Soviética Que Lançou Kleber Mendonça Filho ao Mundo
Arquivo pessoal/Isabela Cribari Legenda da foto,Cena do filme Vinil Verde

Aclamado internacionalmente e com seu mais recente trabalho, ‘O Agente Secreto’, indicado a quatro Oscars, o cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho trilhou um caminho singular até o estrelato. Antes de se tornar um dos nomes mais proeminentes do cinema nacional, Mendonça atuava como jornalista e crítico de cinema no Jornal do Commercio, em Recife. Foi nesse período que ele mergulhou em uma assustadora lenda urbana soviética, transpondo-a para o contexto brasileiro em seu curta-metragem ‘Vinil Verde’, de 2003.

A estreia em Cannes e a força da fotografia

‘Vinil Verde’ não apenas marcou a primeira incursão de Mendonça Filho no prestigiado Festival de Cannes, integrando a seleção da Quinzena dos Realizadores em 2005, como também se tornou um sucesso duradouro. O filme, que conquistou dezenas de prêmios, continua a ser visto e reverenciado duas décadas após seu lançamento. “O filme ganhou dezenas de prêmios e nunca deixou de ser visto nesses 20 anos”, afirmou o cineasta em nota à BBC News Brasil.

A trama, ambientada em um apartamento recifense, narra a história de uma menina que recebe da mãe uma coleção de discos de vinil com músicas infantis. A proibição expressa de ouvir o disco de cor verde desencadeia uma série de consequências aterrorizantes para a mãe, sempre que a menina desobedece.

O curta é notável não apenas por seu enredo sombrio, mas principalmente pela sua concepção visual. ‘Vinil Verde’ foi inteiramente construído a partir de fotografias tiradas por Mendonça Filho, utilizando seis rolos de filme colorido. Essa técnica, inspirada por obras como o francês ‘La Jetée’ (1962) de Chris Marker e o brasileiro ‘Jugular’ (1998) de Fernanda Ramos, demonstra a atração do diretor pela fotografia narrativa, um elemento que o acompanha até hoje: “O uso de fotos narrativas me atrai até hoje”, ressalta Kleber.

A origem da lenda e a colaboração internacional

A ponte entre o cineasta brasileiro e a macabra lenda soviética foi estabelecida pela cineasta ucraniana Bohdana Smyrnova. Conheceram-se em um festival de cinema em Belo Horizonte em 2002, onde iniciaram um relacionamento.

Smyrnova, que atualmente reside em Nova York, compartilhou com a BBC News Brasil que a história faz parte de seu repertório infantil: “Eu conheço essa história desde a infância, porque é aquele tipo de história que as crianças contam umas para as outras”. Ela explicou que, ao saber do interesse de Mendonça em filmar algo de terror, apresentou-lhe contos assustadores do universo soviético, culminando na escolha da trama de ‘Vinil Verde’.

As variações da lenda soviética geralmente giravam em torno de um disco verde proibido, muitas vezes com um tom moralista sobre as consequências da desobediência. A Ucrânia, terra natal de Smyrnova, foi um membro fundador da União Soviética.

Uma camada adicional de significado emerge ao considerar o contexto histórico soviético. Durante o auge do regime, com restrições à música ocidental, um grupo conhecido como ‘stilyagi’ (estilosos) utilizava chapas de raio-X descartadas para prensar discos piratas. O som era precário, e as imagens dos ossos nas chapas conferiam um aspecto mórbido aos discos, que podiam assustar as crianças.

Kleber Mendonça Filho já demonstrava interesse por essas narrativas urbanas, como evidenciado em seu curta de 2002, ‘A Menina do Algodão’, inspirado na lenda da assombração em banheiros escolares. Essa afinidade foi crucial para que Smyrnova compartilhasse a fábula soviética.

Mendonça Filho relatou que a história original que ouviu envolvia luvas verdes, e a versão cinematográfica acabou sendo uma fusão, incorporando tanto o disco de vinil verde quanto as luvas no final. Uma versão da fábula, com discos verdes, mas com um enredo ligeiramente diferente, aparece no livro russo ‘Folclore Infantil Assustador’.

Produção enxuta e créditos em debate

O processo de produção de ‘Vinil Verde’ foi marcado por uma equipe reduzida. Mendonça Filho, que também fotografou o filme em seu próprio apartamento, contou com a colaboração de Bohdana Smyrnova como codiretora e roteirista durante os três meses em que ela esteve no Brasil em 2003. O cineasta Daniel Bandeira auxiliou na edição e montagem, e a artista visual Isabela Cribari atuou como produtora executiva.

A trilha sonora ficou a cargo do músico Silvério Pessoa, que compôs a música ‘Luvas Verdes’, descrita por ele como “soturna”, “tenebrosa”, “sinistra” e “intensa”, criando uma atmosfera de expectativa. A canção, que Pessoa passou a incorporar em seu repertório autoral, contribui para o clima sombrio do curta.

Apesar do reconhecimento de muitos envolvidos no trabalho de Smyrnova como roteirista e idealizadora da trama, ela expressou em entrevista à BBC News Brasil que sente não ter sido devidamente creditada como codiretora. A assessoria de Mendonça Filho não comentou o assunto.

Significados e o legado de ‘Vinil Verde’

Lançado em 2005, ‘Vinil Verde’ foi selecionado para Cannes e premiado em festivais como o de Brasília e o de Recife. Especialistas como Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema da ESPM, destacam a confiança de Mendonça no dispositivo cinematográfico, a construção de atmosfera e a capacidade de inserir a perturbação no cotidiano.

O site cultural francês SensCritique descreveu o filme como “bastante incomum em todos os sentidos, modesto e formidável em sua abordagem”, marcando o início de uma “relação duradoura entre o festival [de Cannes] e o diretor”.

Críticos apontam que ‘Vinil Verde’ vai além da adaptação de uma lenda soviética, explorando temas como amadurecimento, a complexidade das relações entre gerações e a inevitável “ausência materna”, um reflexo pessoal do próprio cineasta, que havia perdido a mãe recentemente.

A linguista Marcella Wiffler Stefanini, da Unicamp, interpreta a desobediência da filha como uma “luta feminista por autonomia”, enquanto Jordão vê a obra como uma fábula sobre “controle, curiosidade e transgressão”.

Daniel Bandeira resume o impacto do curta: “É uma lenda urbana que causou uma impressão muito forte no Kleber. Porque lenda urbana é isso: é a expressão real da cultura e da alma de um povo em um certo momento”. Kleber Mendonça Filho, com ‘Vinil Verde’, fez uma ponte entre Recife e Kiev, traduzindo uma história sombria com a cor e a temperatura de sua terra natal.

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