Por Thomas L. Friedman – The New York Times, 03 de abril de 2025
Recentemente, em Xangai, me vi diante de uma escolha: visitar a Tomorrowland falsa, estilo americano, da Disneylândia local, ou conhecer a verdadeira terra do amanhã — o novo e imenso centro de pesquisa da Huawei, com o tamanho aproximado de 225 campos de futebol americano. Escolhi a Huawei.
A visita foi fascinante, impressionante, e ao mesmo tempo profundamente inquietante. Foi uma confirmação vívida do que um empresário americano que vive há décadas na China me disse em Pequim:
“Antes, as pessoas iam aos EUA para ver o futuro. Agora, vêm para cá”.
Nunca vi nada parecido com o novo campus da Huawei. Erguido em pouco mais de três anos, ele conta com 104 prédios de arquitetura individualizada, gramados bem cuidados, conectados por um monotrilho ao estilo Disney. A estrutura abriga até 35 mil cientistas, engenheiros e outros profissionais, e oferece 100 refeitórios, academias e outros benefícios, tudo pensado para atrair os melhores talentos da tecnologia, tanto chineses quanto estrangeiros.

O centro de P&D Lianqiu Lake é, basicamente, a resposta da Huawei às tentativas dos EUA de sufocar a empresa desde 2019, quando Washington impôs sanções e restrições de exportação de tecnologia, incluindo semicondutores. A Huawei sofreu perdas imensas, mas com apoio do governo chinês, partiu para a inovação com o objetivo de não depender mais dos EUA.
E tem conseguido. Em 2023, a Huawei surpreendeu o mundo ao lançar a série de smartphones Mate 60, equipada com semicondutores avançados apesar das sanções. Depois, apresentou o primeiro celular com tela dobrável tripla e lançou seu próprio sistema operacional, o Hongmeng (ou Harmony), para concorrer com os sistemas da Apple e do Google.
A empresa também investiu pesado em tecnologias de inteligência artificial, aplicadas a veículos elétricos, carros autônomos e até maquinário de mineração automatizado. Só em 2024, segundo executivos, a Huawei instalou 100 mil carregadores rápidos por toda a China. Para efeito de comparação, o Congresso dos EUA destinou US$ 7,5 bilhões à criação de uma rede nacional de carregadores em 2021, mas até novembro de 2024 haviam sido ativados apenas 214 carregadores em 12 estados.
Ver tudo isso de perto é, francamente, assustador. Enquanto o ex-presidente Donald Trump se concentra em questões como esportes e atletas transgêneros, a China transforma suas fábricas com IA para ultrapassar as nossas. A “estratégia de libertação” de Trump consiste em aumentar tarifas e desmantelar instituições científicas; já a estratégia chinesa é expandir seus centros de pesquisa e usar a IA para se libertar dos EUA de forma definitiva.
A mensagem de Pequim é clara: “Não temos medo de vocês. Vocês não são o que pensam ser — e nós também não somos”.
Provas disso?
Em 2024, o Wall Street Journal noticiou que os lucros da Huawei dobraram, graças ao novo hardware movido por chips fabricados pela própria empresa.
Enquanto isso, o senador republicano Josh Hawley disse: “Não acho que eles consigam inovar muito por conta própria — só se continuarmos compartilhando tecnologia com eles”. Mas, claramente, alguns dos nossos legisladores precisam viajar mais.
Se você é congressista e quer criticar a China, tudo bem — até posso me juntar a você — mas faça sua lição de casa. O que vemos hoje é um consenso político superficial: atacar Pequim, gritar “USA! USA!”, soltar algumas frases feitas sobre como democracias sempre vencem autocracias em inovação e dar o assunto por encerrado.
Eu prefiro expressar meu patriotismo sendo brutalmente honesto: reconhecendo os pontos fortes e fracos dos EUA e da China. Acredito que o melhor futuro para ambos, especialmente na era da IA, envolve uma estratégia de produção feita nos EUA, com trabalhadores americanos, em parceria com capital e tecnologia chinesa.
O pensamento mágico de Trump
Durante seu primeiro mandato, Trump estava certo ao impor tarifas à China. O país realmente barrava produtos e serviços americanos — e era necessário responder. Um bom exemplo foi o atraso na aceitação de cartões de crédito estrangeiros, enquanto plataformas como Alipay e WeChat Pay dominavam o mercado e tornavam a China uma sociedade quase sem dinheiro em espécie.
Na semana passada, ao tentar usar meu cartão Visa numa loja em uma estação de trem em Pequim, fui informado de que ele só funcionaria se estivesse vinculado a um desses aplicativos chineses, que hoje detêm mais de 90% do mercado de pagamentos.
Concordo também que tarifas pontuais para produtos chineses desviados por rotas como México e Vietnã podem ser úteis — mas apenas como parte de uma estratégia mais ampla.
O problema é o “pensamento mágico” de Trump: imaginar que basta erguer barreiras comerciais e, num passe de mágica, as fábricas americanas florescerão, sem impactar os consumidores.
Essa visão ignora que produtos complexos — como carros, iPhones e vacinas — são frutos de cadeias de produção globais interligadas.
Sim, tarifas ajudam indústrias como a do aço, mas para a indústria automobilística, por exemplo, não basta um muro tarifário. Levaria anos para reconstruir a cadeia de suprimentos completa dentro dos EUA. Até a Tesla importa peças.
Também é um erro pensar que a China só avançou por meio de trapaças. Ela trapaceou, copiou e forçou transferência de tecnologia? Sim.
Mas o que a torna uma potência hoje é que ela fabrica produtos melhores, mais baratos, mais rápidos e cada vez mais inteligentes, graças à IA.
Dentro da academia chinesa
Como isso acontece? Jörg Wuttke, ex-presidente da Câmara de Comércio da UE na China, chama esse processo de “a academia de ginástica chinesa” — e ela funciona assim:
A China prioriza a formação em CTEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Forma cerca de 3,5 milhões de estudantes por ano nessas áreas — quase o mesmo total de todos os formandos em qualquer curso nos EUA. Isso dá à China mais talento técnico disponível do que qualquer outro país.
E embora nem todos os engenheiros sejam nível MIT, os melhores são excelentes — e são muitos. Em um país de 1,4 bilhão de pessoas, um “gênio em um milhão” significa que há outros 1.400 como ele.
Além disso, escolas técnicas chinesas formam dezenas de milhares de eletricistas, encanadores, carpinteiros e soldadores todos os anos. Assim, uma nova ideia pode virar uma fábrica funcionando em tempo recorde.
Precisa de um botão rosa que canta o hino nacional ao contrário? Alguém vai fazer isso pra amanhã.
Tudo lá é rápido. Mais de 550 cidades estão conectadas por trens-bala, enquanto o Acela americano parece o Pony Express em comparação.
Hotéis usam reconhecimento facial para entrada e saída. Mendigos exibem QR Codes para receber doações por celular.
O sistema é feito para a velocidade — inclusive para reprimir opositores, que são vigiados por câmeras e detidos rapidamente.
Sem um “ginásio” como esse, qualquer tarifa resultará apenas em inflação e estagnação.
Não se chega à prosperidade por meio de tarifas — especialmente na era da IA.
Voltei à China há quatro meses. Desde então, empresas locais já criaram seus próprios motores de IA de código aberto, como o DeepSeek, com bem menos chips americanos. A energia do setor de tecnologia era palpável.
No mês passado, o primeiro-ministro Li Qiang afirmou que o governo chinês apoia “a ampla aplicação de modelos de IA em larga escala”.
Um engenheiro automotivo chinês que já trabalhou na Tesla me disse:
“Hoje todos competem pela quantidade de IA que conseguem incorporar. Isso virou símbolo de status. Está todo mundo comprometido”.
Artigo traduzido e reproduzido