EUA: Aliados tradicionais questionam confiabilidade de Washington

Uma pesquisa recente aponta para uma crescente desconfiança em relação à liderança dos Estados Unidos entre seus aliados históricos. O estudo, realizado pela Politico em parceria com a Public First, entrevistou 11.000 pessoas nos EUA, Reino Unido, França, Alemanha e Canadá, revelando que a percepção de Washington mudou de um guardião estável para um parceiro imprevisível, prejudicando seu próprio futuro.
O ‘gap’ de confiabilidade se amplia
O achado mais alarmante do relatório é o aumento da lacuna de confiabilidade na liderança americana. Em nações como Alemanha e Canadá, a confiança na consistência das políticas dos EUA atingiu níveis historicamente baixos. Essa mudança é atribuída a profundas divisões políticas internas nos EUA, que transformaram a política externa em uma sucessão de alterações súbitas e erráticas. A alternância de administrações pode levar ao cancelamento de promessas e tratados anteriores, tornando os EUA um parceiro de alto risco para seus aliados europeus e norte-americanos.
Grande parte dessa instabilidade é associada ao ressurgimento das políticas de “America First”. Ao ameaçar tarifas massivas, como uma taxação de 100% sobre bens canadenses, os EUA são vistos atacando seus próprios aliados em busca de ganhos rápidos e de curto prazo. Essa abordagem transacional faz com que os aliados se sintam tratados como adversários.
Autonomia estratégica e o vácuo de poder
O relatório sugere que os EUA estão se engajando em uma forma de “autossabotagem geopolítica”. Ao tornar sua liderança condicional e custosa, Washington estaria impulsionando seus aliados a buscarem outras parcerias. Quando os EUA exigem que seus aliados se “desacoplem” da China, muitas vezes essas nações percebem a ação como egoísta e irrealista.
Estudos similares de organizações como o European Council on Foreign Relations (ECFR) e a Gallup corroboram essa tendência. Em muitas nações europeias, observa-se um desejo crescente por “autonomia estratégica”, a ideia de que a Europa precisa aprender a se defender sem o apoio americano. Enquetes indicam que, em caso de um conflito maior entre EUA e China, a maioria dos europeus preferiria permanecer neutra em vez de apoiar os EUA. A percepção é de que Washington perdeu seu senso de propósito consistente e está recuando para o isolacionismo, deixando um “vácuo de liderança” que outras nações começam a preencher.
Os Estados Unidos não são mais a escolha automática devido à sua volatilidade. Ao priorizar a política interna sobre a estabilidade internacional, o país transitou de um “líder” confiável para um “competidor transacional”. Neste mundo em rápida evolução, os EUA são apenas mais um jogador, e um dos mais arriscados para se apostar.
