O que é uma film commission e como ela pode impulsionar o audiovisual em Fortaleza? Fortaleza irá ganhar em 2026 uma entidade que fará a intermediação entre produtoras e órgãos municipais para dar suporte e otimizar a logística de filmagens em espaços públicos e, por outro lado, buscará atrair para a Cidade gravações de produções nacionais e até internacionais. Regulamentada oficialmente no final de 2025 por decreto municipal, a Fortaleza Film Commission deve começar a cumprir plenamente os dois papeis até o final de abril, conforme adianta à coluna o gestor Daniel de Paula. Anunciado como o nome à frente da entidade no início de março, o cearense explica o que é uma film commission, como ela pode impactar a economia da Capital para além do audiovisual e quais os passos previstos para o pleno funcionamento da comissão. Veja também Film commissions organizam e otimizam processos para filmagens Apesar de ser “uma atividade nova no município”, como Daniel descreve, a film commission (comissão de cinema, em tradução livre) é uma instância comum no universo do audiovisual ao redor do mundo. Dados de 2024 da publicação “Cenário das Films Commissions no Brasil: perfil, atuação e perspectiva federal”, da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), apontavam pelo menos 17 entidades do tipo no País à época. Na prática, explica Daniel, a comissão “recebe demandas da iniciativa privada — de produtoras, realizadores — e abre diligências” para facilitar os processos necessários para a realização de gravações. “Vamos supor que a pessoa precisa filmar no Passeio Público, então ela vai abrir um chamado dentro do SPU (Sistema de Protocolo Único da Prefeitura Municipal de Fortaleza). A gente vê quem são as instâncias imbuídas naquele processo, (por exemplo) a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos, Etufor, AMC. A gente concentra essas demandas e abre diligência para em tempo hábil resolver” “O interesse da cidade é que ela seja cenário para filmes de curta-metragem, longa-metragem, séries, então a gente tem todo o interesse de atender a demanda e a precisa organizar o poder público para acolhê-las”, resume o gestor. Atração de produções nacionais e internacionais para Fortaleza Esse papel, avança Daniel, “funciona em duas vertentes”. A organização dos processos logísticos serve, também, para atrair para Fortaleza filmagens de produções nacionais e estrangeiras. “O papel da gente é criar esse ambiente de negócio e de atração e, aí, publicizar por exemplo a nossa rede hoteleira, a nossa cadeia de bares e restaurantes, a nossa capacidade de absorver grandes equipes de cinema”, explica. Esse viés, ressalta Daniel, evidencia os potenciais econômicos gerais do audiovisual e da cultura. “O audiovisual é uma linguagem complexa, tem outras linguagens intrínsecas. Quando trabalha com cinema, está estimulando teatro, design, arquitetura, música”, inicia. Uma produção cultural, no entanto, também impacta economicamente em outras vertentes, como alimentação, transporte e hospedagem. “Já tem estudo (que comprova), quando uma produção se estabelece em uma localidade, ela deixa 60% do orçamento. Se a gente falar de um filme de R$ 1 milhão, R$ 600 mil vão ser investidos. Isso impacta diretamente hotéis, cadeia de de alimentação, transporte, uma série de pessoas e agentes. A médio e longo prazo, você vê que aquilo vai fomentando outras áreas do setor econômico” É por isso que Daniel ressalta a importância da aproximação entre a comissão e diferentes entes públicos e sociedade civil, como as Secretarias do Turismo (Setfor) e de Governo (Segov), Sebrae, Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). “Tendo uma estrutura organizada, a gente consegue nesse processo de desburocratização dar agilidade para as pautas e as demandas daquela produção audiovisual. Quando a gente organiza esse processo, está dizendo para produtoras locais, nacionais e internacionais, que temos um ambiente organizado para atender demandas específicas do setor”, aponta. “Desburocratização” e concorrência são desafios para a Fortaleza Film Commission Com atuação profissional como produtor de festivais, eventos de mercado e filmes como “Greice”, “O Shaolin do Sertão 2”, “Cabeça de Nêgo” e “O Melhor Amigo”, Daniel de Paula destaca a “desburocratização” como foco da entidade. “Estive há pouco tempo atrás do outro lado da bancada, trabalhando na produção de filmes, e sei o quanto é onerosa a relação da iniciativa privada com o poder público. Nosso papel é conseguir desburocratizar. Fazer alinhamentos e desburocratizar, para não atrapalhar o produtor e deixar a cidade com a capacidade de absorver projetos e demandas”, compreende. Além do desafio a nível prático, o gestor também reconhece que Fortaleza se soma a um cenário de film commissions já estabelecidas e outras também novas. Uma equipe de cinema trabalha em uma gravação noturna do filme cearense ‘A Filha do Palhaço’ sob a luz de refletores em uma rua de Fortaleza, com atores sentados na calçada ao fundo. A cena captura o contraste entre a escuridão da noite e a iluminação artificial do set, cercado por cones e equipamentos de produção. Legenda: Gravações em ruas e espaços públicos de Fortaleza — como no caso do exemplo de “A Filha do Palhaço” (2022), de Pedro Diógenes — podem ser ajudadas com a atuação da film commission. Foto: Linga Acácio / Divulgação. Nacionalmente, as experiências de São Paulo e do Rio de Janeiro são descritas como “êxitos” por Daniel, que cita ainda como exemplos descentralizados bem sucedidos as entidades de Curitiba e Belo Horizonte. Já no Nordeste, há film commissions em nível estadual na Bahia e, em nível municipal, em Salvador, Recife e João Pessoa. É necessário, conforme o gestor, “criar um ambiente de atração” para produções. “A gente precisa criar esse ambiente e essa condição de atrair um dinheiro que naturalmente não viria para cá, dar a oportunidade para que a prefeitura consiga concorrer com outras praças”, defende. Construção coletiva do comitê gestor Apesar do decreto de criação da film commission — que estabeleceu o regimento interno com diretrizes e composição do comitê gestor — ter sido assinado em dezembro de 2025, Daniel contextualiza que a entidade já havia sido aprovada no escopo da Prefeitura em 2022. “Foi uma provocação da sociedade civil organizada, dos fóruns, da Ceavi (Associação de Produtoras de Audiovisual Independente do Ceará) e outros agentes dentro do escopo audiovisual”, ressalta o atual gestor. Depois da “construção coletiva”, o momento agora é de “adequação”, com o estabelecimento das normas e procedimentos de organização e atração de filmagens. Isso será efetivado pelo Comitê Gestor da film commission, que irá reunir representantes de diferentes entidades municipais, como secretarias de Juventude, Turismo e Conservação e Serviços Público e a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC). “Preciso abrir diálogo individualmente com cada uma delas para que indiquem titular e suplente, e preciso que tenham sensibilidade com a pauta. A gente está abrindo diligências com as demais secretarias e acredito que até o final de abril esteja com isso estabelecido”, explica. Em paralelo, Daniel reforça a abertura para abertura de diálogos e atuação conjunta com outras entidades públicas, como a Empresa Cearense de Audiovisual (ECAV), e/ou da sociedade civil. “A gente vai abrir diálogo com todo mundo para poder ter condição de atender as necessidades do setor”, reforça.
A partir de 2026, Fortaleza contará com uma nova entidade dedicada a impulsionar o setor audiovisual: a Fortaleza Film Commission. Regulamentada por decreto municipal no final de 2025, a comissão tem como objetivo atuar como ponte entre produtoras e órgãos municipais, otimizando a logística de filmagens em espaços públicos e, simultaneamente, atraindo produções audiovisuais de âmbito nacional e internacional para a cidade.
O que é uma Film Commission?
Conforme explica Daniel de Paula, gestor da entidade, uma Film Commission, em tradução livre “comissão de cinema”, é uma instância comum no cenário audiovisual global. Sua função primordial é receber demandas da iniciativa privada – como produtoras e realizadores – e coordenar as diligências necessárias para viabilizar as gravações. Isso envolve a articulação entre diversas secretarias e autarquias municipais, como a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos, a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor) e a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), simplificando processos que antes poderiam ser morosos.
O interesse da cidade, segundo De Paula, é que Fortaleza se torne um cenário fértil para filmes de curta e longa-metragem, séries e outros formatos. A comissão busca, portanto, organizar o poder público para acolher e atender essas demandas de forma eficiente.
Em 2024, a publicação “Cenário das Films Commissions no Brasil” da Embratur já apontava a existência de pelo menos 17 entidades similares em todo o país, evidenciando a crescente importância dessas estruturas para o fomento do audiovisual.
Impulsionando a Economia Local
A atuação da Fortaleza Film Commission se desdobra em duas frentes principais. A primeira é a organização logística interna, que, por si só, já funciona como um atrativo para produções externas. A segunda vertente foca em criar um ambiente de negócios favorável e em publicizar os potenciais da cidade, como a rede hoteleira, a oferta gastronômica e a capacidade de receber grandes equipes de cinema.
O audiovisual, ressalta Daniel de Paula, é uma linguagem multifacetada que estimula outras áreas criativas como teatro, design, arquitetura e música. Além disso, uma produção audiovisual gera impactos econômicos significativos em setores como alimentação, transporte e hospedagem. Estudos indicam que cerca de 60% do orçamento de uma produção se fixa na localidade onde ela é realizada, o que significa que um filme com orçamento de R$ 1 milhão pode injetar R$ 600 mil na economia local, beneficiando diretamente hotéis, restaurantes e serviços de transporte.
Para potencializar esses efeitos, a comissão preza pela aproximação com diversos entes públicos e a sociedade civil, incluindo a Secretaria do Turismo (Setfor), a Secretaria de Governo (Segov), o Sebrae, a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) e a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Essa colaboração visa garantir que a desburocratização dos processos não apenas agilize as pautas, mas também posicione Fortaleza como um destino competitivo para produtoras locais, nacionais e internacionais.
Desafios e Construção Coletiva
Daniel de Paula, com sua experiência como produtor de eventos e filmes, entende a “desburocratização” como um dos pilares centrais da Film Commission. O objetivo é minimizar os entraves na relação entre a iniciativa privada e o poder público, facilitando a captação de projetos e demandas para a cidade.
A concorrência é outro fator a ser considerado. Fortaleza se junta a um cenário onde cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte já possuem experiências consolidadas. No Nordeste, estados como a Bahia e municípios como Salvador, Recife e João Pessoa também contam com suas próprias film commissions. Para se destacar, a entidade precisa criar condições atrativas que permitam a Fortaleza competir por investimentos que, de outra forma, poderiam ser direcionados para outras praças.
A criação da Fortaleza Film Commission, embora oficializada por decreto em dezembro de 2025, teve suas origens em uma articulação coletiva iniciada em 2022, a partir de demandas da sociedade civil organizada, de fóruns e da Associação de Produtoras de Audiovisual Independente do Ceará (Ceavi). O momento atual é de adequação e estabelecimento de normas e procedimentos. O Comitê Gestor, que reunirá representantes de diversas secretarias municipais e autarquias, está em fase de formação, com a indicação de titulares e suplentes de cada pasta. A expectativa é que, até o final de abril, a estrutura esteja plenamente estabelecida, abrindo caminho para o diálogo e a colaboração com outras entidades públicas e privadas do setor audiovisual, como a Empresa Cearense de Audiovisual (ECAV).