Abelhas desvendam o zero: Insetos provam que o ‘nada’ é número para eles

A percepção de que o “nada” pode ser um número é uma das maiores revoluções da história da matemática, impulsionando avanços científicos e tecnológicos. No entanto, a ideia de que essa compreensão abstrata seria exclusiva dos seres humanos está sendo desafiada por descobertas surpreendentes no reino animal. Estudos recentes revelam que até mesmo insetos, como as abelhas, demonstram uma notável capacidade de entender o conceito de zero, sugerindo que as raízes da cognição numérica são muito mais profundas e compartilhadas evolutivamente do que se imaginava.
A Revolução do Zero na História Humana
Por milênios, a ausência de algo era simplesmente isso: a ausência. O conceito de “nada” como uma quantidade mensurável, um número com valor próprio, não existia. Civilizações antigas na Índia, Mesopotâmia e no mundo árabe foram pioneiras ao introduzir um símbolo para representar a falta de unidades em seus sistemas posicionais. Essa inovação foi um divisor de águas, permitindo o desenvolvimento de cálculos complexos, a ascensão da álgebra e, consequentemente, tornando-se um pilar fundamental para a física, engenharia, computação e os modelos estatísticos que sustentam a ciência moderna.
Cognição Numérica: Além da Linguagem Humana
A cognição numérica animal é um campo fascinante que explora como diferentes espécies processam e interagem com quantidades sem a necessidade de linguagem ou símbolos escritos. Pesquisadores investigam a capacidade dos animais de distinguir conjuntos, identificar padrões e compreender relações como “mais” ou “menos”. O grande questionamento é se a habilidade de perceber “nada” como o menor valor é uma construção cultural humana ou se possui bases biológicas e evolutivas compartilhadas com outras formas de vida.
Insetos e o Conceito de Ausência
As abelhas, em particular, têm se mostrado estrelas inesperadas nesse campo. Pesquisas demonstram que esses pequenos polinizadores não só discriminam pequenas quantidades de objetos, mas também conseguem associar estímulos a recompensas. O mais impressionante é sua capacidade de, em determinadas situações, escolher “nenhuma unidade” em detrimento de poucas unidades, um comportamento que aponta para uma representação numérica abstrata. Essa habilidade já havia sido observada em primatas e aves, como macacos e papagaios, que tratam a ausência de elementos como uma condição específica, e não meramente uma falta de estímulo.
Vantagens Evolutivas: Por Que o ‘Nada’ Importa?
A capacidade de perceber a ausência de algo não é apenas uma curiosidade intelectual no reino animal; ela confere vantagens evolutivas cruciais. Na natureza selvagem, a diferença entre “nenhum predador” e “um predador” pode ser a linha tênue entre a vida e a morte. Da mesma forma, distinguir entre “sem alimento” e “algum alimento” impacta diretamente a sobrevivência e a tomada de decisões. Para espécies sociais, notar a ausência de um parceiro, um cheiro familiar ou um marco espacial é vital para a coordenação do grupo, a navegação eficiente e o sucesso em estratégias de forrageamento e defesa.
O Futuro da Pesquisa: Um Olhar Além do Antropocentrismo
Os avanços nas pesquisas de cognição numérica animal, especialmente com o conceito de zero, indicam que essa funcionalidade pode ter surgido independentemente em diversos momentos da evolução. Em vez de buscar paralelos exatos com a compreensão humana, os cientistas estão focando em como diferentes espécies desenvolvem soluções variadas para problemas numéricos. Entre os comportamentos mais frequentemente observados, destacam-se:
- Reconhecimento de pequenas quantidades, geralmente de um a quatro itens.
- Preferência sistemática por conjuntos maiores ou menores em contextos de recompensa.
- Diferenciação clara entre ausência total e a presença de poucos elementos.
- Capacidade de generalizar esse conhecimento para novas situações e ambientes.
Essas descobertas ampliam nossa compreensão sobre a complexidade da mente animal e sugerem que a capacidade de abstração numérica é um traço biológico com raízes muito mais antigas e diversificadas do que se pensava.
Da redação do Movimento PB.
