Ave Sangria: Anistia 50 Anos Após Censura da Ditadura Militar

A banda pernambucana Ave Sangria, ícone da música brasileira, recebeu nesta quinta-feira (26) a anistia formal do Estado brasileiro, 50 anos após ter seu disco de estreia, lançado em 1974, censurado pela ditadura militar. A decisão da Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos representa um reconhecimento tardio das perseguições sofridas pelo grupo e busca reparar os danos causados à sua carreira.
Reparação Histórica e Simbólica
A anistia não se limita a um gesto simbólico. O Estado brasileiro pediu desculpas aos músicos e determinou o pagamento de uma pensão mensal e vitalícia de R$ 2 mil, com o valor retroativo a ser calculado. O conselheiro Manoel Severino Moraes de Almeida, integrante da Comissão de Anistia, ressaltou a importância da arte como expressão de espírito contestador em regimes autoritários, como o que vigorou no Brasil.
“O grupo Ave Sangria representa no dia de hoje a possibilidade de voltarmos ao passado, trazendo para o futuro um recado”, afirmou Almeida, destacando que a medida visa reparar a interrupção forçada da carreira da banda, então em ascensão, que acabou desarticulada pela repressão.
O Símbolo da Censura: “Seu Waldir”
A canção “Seu Waldir” emergiu como o principal símbolo da censura imposta à Ave Sangria. A música, que inicialmente foi concebida pelo vocalista para ser interpretada por Marília Pêra em uma peça de teatro, ganhou popularidade nas rádios. No entanto, uma campanha orquestrada a acusou de insinuar conteúdo homossexual, levando à retirada do disco de circulação e ao silenciamento do grupo.
Apesar do revés, a banda retomou suas atividades e lançou o álbum “Vendavais” em 2019, demonstrando resiliência e a força de sua expressão artística.
Emoção e Alívio em Recife
Marco Polo e Almir de Oliveira, membros fundadores da Ave Sangria, acompanharam a votação em Brasília por transmissão direta do Memorial da Democracia, no Sítio Trindade, no Recife. O local, que servia de palco para os ensaios da banda e foi berço do Movimento de Cultura Popular, adicionou um peso emocional à cerimônia.
Marco Polo expressou a emoção e o alívio do momento: “Foi uma emoção muito grande e uma sensação de alívio. O Estado reconhece que errou e tenta reparar. Cinquenta anos depois, ainda chega em boa hora — estamos vivos e seguimos batalhando pela música, pela liberdade e pela democracia”, declarou.
