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Bonobo surpreende cientistas e prova que ‘faz de conta’ não é só para humanos

Bonobo surpreende cientistas e prova que ‘faz de conta’ não é só para humanos
Bonobo surpreende cientistas e prova que ‘faz de conta’ não é só para humanos

A capacidade de brincar de ‘faz de conta’, antes considerada exclusiva da mente humana, acaba de ser desafiada por um chimpanzé-pigmeu (bonobo) chamado Kanzi. Em uma descoberta que promete remodelar nossa compreensão sobre a cognição animal, Kanzi demonstrou claramente a habilidade de se engajar em jogos imaginários, preferindo um copo que os cientistas fingiram encher com suco a outro que foi ‘esvaziado’ de seu conteúdo imaginário.

Os resultados, publicados na renomada revista Science, marcam a primeira evidência inequívoca de jogo de faz de conta em um animal não humano. Este estudo adiciona uma camada crucial ao crescente corpo de evidências de que alguns animais, especialmente nossos parentes mais próximos, são capazes de conceber objetos, eventos e indivíduos que não estão presentes no ‘aqui e agora’.

Kanzi: Um Animal com ‘Vida Mental Rica’

Amalia Bastos, psicóloga comparativa da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, e coautora do estudo ao lado do cientista cognitivo Christopher Krupenye da Johns Hopkins University, em Baltimore, Maryland, enfatiza a relevância da descoberta. “Isso nos diz que talvez eles tenham uma vida mental interna mais rica do que algumas pessoas poderiam ter lhes dado crédito ou esperado”, afirma Bastos.

Kanzi, que faleceu em 2025 aos 44 anos, já era uma celebridade no campo da cognição animal. Sua notável capacidade de compreender centenas de palavras em inglês e utilizar símbolos conhecidos como lexigramas para se comunicar foi crucial para o sucesso dos experimentos. Os pesquisadores, inclusive, se declararam “um pouco deslumbrados” ao trabalhar com ele.

O ‘Chá Imaginário’ que Desafiou a Ciência

Para testar explicitamente a capacidade de fingimento dos primatas, Bastos e Krupenye adaptaram uma tarefa de “festa do chá” comumente usada em crianças, que geralmente começam a imaginar objetos por volta dos 2 a 3 anos de idade. A tarefa foi simplificada, aproveitando as habilidades linguísticas de Kanzi.

Inicialmente, Kanzi aprendeu a escolher um copo transparente preenchido com suco real em detrimento de um vazio. Em seguida, os pesquisadores progrediram para a tarefa de faz de conta. Um experimentador mostrou a Kanzi dois copos e então fingiu enchê-los de uma jarra vazia. Depois de inverter um dos copos – para ‘esvaziar’ seu conteúdo imaginário – Kanzi foi solicitado a escolher um copo. O bonobo selecionou o copo ‘cheio’ em 34 de 50 tentativas, um número muito superior ao esperado se suas escolhas fossem aleatórias.

Em uma tarefa similar envolvendo uvas, Kanzi optou pela fruta “imaginária” em 69% dos testes, reforçando a consistência de seu comportamento de faz de conta.

Implicações Além do Laboratório

Embora observações anteriores já tivessem notado comportamentos que se assemelham ao fingimento em chimpanzés e outros grandes primatas – como uma bonobo chamada Panbanisha que simulava colher e comer mirtilos imaginários, ou chimpanzés selvagens carregando toras como se fossem bonecas –, o estudo com Kanzi oferece a primeira prova experimental e controlada. Isso sugere que a linha entre a cognição humana e a animal pode ser mais tênue do que se pensava, abrindo novas avenidas para a pesquisa sobre a mente dos nossos parentes mais próximos.

Da redação do Movimento PB.

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