Orelhão: a história da designer que revolucionou a telefonia no Brasil

O legado de Chu Ming Silveira
O orelhão, um ícone do Brasil do século 20, transcende sua função original de meio de comunicação. Tornou-se ponto de encontro, referência de localização e até abrigo de chuva. Nas décadas finais do século passado, quando smartphones e internet eram raridade, o orelhão era a solução para quem precisava fazer uma ligação.
A ideia de usar um telefone público na rua pode parecer estranha hoje, mas era uma alternativa conveniente para evitar pedir o telefone emprestado em estabelecimentos comerciais. Por muitos anos, a dificuldade de comunicação era uma constante nas ruas, até o surgimento do orelhão.
A história do orelhão no Brasil
O primeiro orelhão foi instalado em 1971, na rua Sete de Abril, em São Paulo, pela Companhia Telefônica Brasileira (CTB). A partir do ano seguinte, a instalação se expandiu por todo o país. Estima-se que o Brasil chegou a ter 1,2 milhão de orelhões. Em 2019, restavam cerca de 800 mil, mas a mudança nas regras de telefonia permitiu que operadoras como Vivo e Oi descontinuassem a manutenção dos aparelhos. No final de 2025, apenas 13 mil orelhões permaneciam ativos.
A mente por trás do design icônico
Além de sua utilidade, o design do orelhão é um aspecto notável. A arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira foi a mente criativa por trás desse projeto. Nascida em Xangai, ela se mudou para o Brasil com dez anos e formou-se em arquitetura pela Universidade Mackenzie em 1965. Em 1966, começou a trabalhar na CTB, onde se tornou chefe do Departamento de Projetos e recebeu a missão de criar a estrutura protetora para os telefones públicos.
Chu Ming descartou as cabines fechadas, comuns em países de clima frio, e buscou inspiração no ovo de galinha, que considerava ideal para acústica. “Sua forma oval foi adotada não só por suas características acústicas e de design, bem como pela sua coerência com o método de execução”, explicou a arquiteta.
O design do orelhão visava bloquear o ruído externo e proteger o ouvido do usuário. Os materiais escolhidos, acrílico e fibra de vidro, garantiam durabilidade e resistência. Foram criados dois modelos: o Chu I, ou Orelhinha, para ambientes internos, e o Chu II, o Orelhão, para áreas externas, resistente às condições climáticas brasileiras.
Outros projetos de Chu Ming Silveira
Após o orelhão, Chu Ming Silveira desenvolveu outros projetos importantes, como bancas de jornais e flores em fibra de vidro para a Prefeitura de São Paulo, em 1974. Na década de 1980, criou projetos de residências em Ilhabela, utilizando materiais sustentáveis e reaproveitados.
Casada com o engenheiro Clovis Silveira, Chu Ming teve dois filhos: Djan, empresário e fotógrafo de arquitetura, e Alan, também arquiteto. Ela faleceu em 18 de junho de 1997, em São Paulo.
Carlos Drummond de Andrade, em sua coluna no Jornal do Brasil, expressou seu apreço pela invenção: “A CTB não desanimou, e saiu-se com o telefone protegido por uma cuia invertida… Agiu tão depressa, e bolou tão bem a coisa, que os vândalos ficaram tontos… A população tomou conta das cabinas… Simpatizou com elas. Aprovou-as”.
Drummond destacou como soluções criativas e funcionais podem transformar uma cidade. Ele celebrou a invenção, ressaltando a importância de valorizar e preservar as qualidades urbanas.
Da redação do Movimento PB.
