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Cuba e EUA: Seis Décadas de Rivalidade Histórica

Cuba e EUA: Seis Décadas de Rivalidade Histórica
As hostilidades entre Washington e Havana começaram meses após a chegada de Fidel Castro ao poder na ilha

A relação entre Cuba e os Estados Unidos é marcada por uma das rivalidades mais duradouras da história contemporânea. O antagonismo político entre a potência mundial e a ilha caribenha, com menos de 10 milhões de habitantes, remonta a mais de seis décadas, desde o triunfo da revolução socialista liderada por Fidel Castro. Este longo período testemunhou eventos como a invasão da Baía dos Porcos, apoiada pela CIA, a ameaça de um confronto nuclear e diversas crises migratórias, moldando gerações de cubanos e americanos.

Atualmente, as tensões entre Washington e Havana atingiram um novo pico com o retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025. Seu governo intensificou o embargo econômico, vigente desde os anos 1960, e impôs restrições ao envio de combustível para Cuba. Essas medidas agravaram a crise energética, econômica e social que já assolava a ilha, especialmente após a redução do apoio venezuelano. Trump declarou que Cuba está “a ponto de cair”, ao mesmo tempo em que indicou negociações para resolver o impasse, gerando ceticismo em observadores acostumados a ver aproximações frustradas.

Origens da Disputa: Do Maine à Emenda Platt

A rivalidade entre os dois vizinhos tem raízes profundas, que remontam ao final do século XIX. Em 15 de fevereiro de 1898, a explosão do encouraçado americano USS Maine no porto de Havana, que resultou na morte de mais de 260 tripulantes, serviu como estopim para a Guerra Hispano-Americana. Embora investigações posteriores tenham indicado que a explosão foi provavelmente acidental, causada por um incêndio interno, na época as suspeitas recaíram sobre a Espanha, então em guerra com rebeldes cubanos. A intervenção militar dos EUA pôs fim a mais de quatro séculos de colonização espanhola em Cuba.

Após a guerra, os Estados Unidos desempenharam um papel crucial na reconstrução cubana, com empresários americanos encontrando oportunidades de investimento a preços baixos. Cuba tornou-se um protetorado americano entre 1898 e 1902. A independência formal veio com a primeira Constituição, mas a Emenda Platt, vigente entre 1901 e 1934, manteve a ilha sob forte influência de Washington. Este apêndice constitucional permitiu aos EUA intervir nos assuntos internos cubanos e estabelecer a base naval de Guantánamo, que permanece sob controle americano até hoje.

A Revolução Cubana e o Rompimento com os EUA

Na década de 1950, apesar da recuperação da indústria doméstica e do capital cubano, a influência de empresas americanas em setores-chave como níquel, eletricidade, telecomunicações e finanças permanecia significativa. A prosperidade convivia com a desigualdade e a corrupção, exacerbadas pelo governo autoritário de Fulgencio Batista, que tomou o poder por meio de um golpe em 1952. O apoio de Washington a governos autoritários cubanos anteriores, como o de Gerardo Machado, alimentava um sentimento anti-americano generalizado, que transcendia a esquerda e abrangia diversas ideologias.

Neste contexto de descontentamento e desejo por maior soberania nacional, Fidel Castro emergiu como líder político com ideias socialistas. Após um levante fracassado em 1953, Castro exilou-se no México e retornou a Cuba em 1956, liderando uma guerrilha com Ernesto “Che” Guevara. Em 1º de janeiro de 1959, Batista fugiu do país, e Castro entrou triunfalmente em Havana, aclamado por grande parte da população.

Nacionalizações, Embargo e a Virada Socialista

O rompimento entre Cuba e os Estados Unidos não foi imediato. No entanto, uma reforma agrária proposta por Castro, que incluía a nacionalização de terras controladas pelos EUA, e a subsequente assinatura de acordos com a União Soviética, incluindo o intercâmbio de açúcar por petróleo russo, acirraram as tensões. A recusa das empresas americanas em processar o petróleo soviético levou o governo cubano a nacionalizar as refinarias. Em resposta, Washington cortou a cota de açúcar cubano no mercado americano, e Moscou assumiu como principal comprador. Essa escalada culminou na primeira fase do embargo econômico dos EUA a Cuba e na total nacionalização das indústrias americanas na ilha. A ruptura formal das relações ocorreu em janeiro de 1961, marcando o início da virada socialista da revolução cubana.

Anos de Tensão Máxima: Baía dos Porcos e Crise dos Mísseis

Os anos seguintes foram de intensa tensão. Em abril de 1961, a invasão da Baía dos Porcos, com apoio da CIA, visava derrubar o governo de Castro, mas foi esmagada pelas forças cubanas em três dias. O fracasso americano fortaleceu Castro e levou à reavaliação da política de Washington em relação a Cuba, resultando na Operação Mangusto, um programa clandestino de sabotagem e inteligência com o objetivo de desestabilizar o regime. Em meio a essa escalada, a União Soviética instalou mísseis em Cuba, desencadeando a crise dos mísseis em outubro de 1962. Por 13 dias, o mundo esteve à beira de um confronto nuclear. A crise foi resolvida com a retirada dos mísseis soviéticos, mas solidificou a aliança de Cuba com o bloco socialista e aprofundou o distanciamento dos EUA.


Da esquerda para a direita, Fidel Castro, Ernesto
Da esquerda para a direita, Fidel Castro, Ernesto “Che” Guevara e Anastas Mikoyan, durante a visita que acelerou o processo de desencontro entre Washington e Havana

Décadas de Impasse e Crises Migratórias

As décadas seguintes foram caracterizadas por um impasse, com momentos de distensão e colaboração em temas como migração e segurança. O sistema socialista cubano, liderado por Fidel Castro, consolidou-se, inspirando movimentos de esquerda na América Latina. A migração tornou-se um ponto de atrito e cooperação, com os EUA oferecendo tratamento preferencial a migrantes cubanos. Eventos como o êxodo de Mariel em 1980 e a crise dos balseiros em 1994, que levaram à política de “pés secos, pés molhados”, evidenciaram a complexidade das relações migratórias.

A década de 1990 também foi marcada pelo endurecimento das medidas contra Cuba, com a implementação da Lei Helms-Burton em 1996, que consolidou o embargo e tornou sua anulação dependente de aprovação do Congresso. O país caribenho tornou-se dependente do turismo, sem conseguir superar totalmente os reveses econômicos do período.

Resolução Congelada: Do Degelo ao Novo Endurecimento

Após a saída de Fidel Castro do poder em 2006 e a ascensão de Raúl Castro, as relações com os Estados Unidos experimentaram um “degelo” significativo durante a presidência de Barack Obama. Em 2015, as embaixadas foram reabertas, restrições de viagem foram suspensas e uma esperada abertura econômica se iniciou. No entanto, a chegada de Donald Trump à Casa Branca em 2017 marcou o desmantelamento dessa aproximação. Com seu retorno em 2025, o embargo e as pressões sobre a ilha foram intensificados, reacendendo as tensões históricas entre os dois países vizinhos.

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