Diagnóstico tardio em saúde: criador do Mais Médicos alerta sobre perda da cura

Mozart Sales, idealizador do programa Mais Médicos, enfatiza que a agilidade no diagnóstico é crucial para o sucesso do tratamento de doenças, especialmente as graves como o câncer. Segundo ele, a demora na identificação de patologias resulta em sofrimento, dor e, em muitos casos, na perda da chance de cura.
O Legado do Mais Médicos e a Busca por Especialistas
O programa Mais Médicos, vigente entre 2013 e 2018, foi uma iniciativa conjunta do governo federal brasileiro e de Cuba, com o propósito de expandir o acesso a profissionais de saúde, particularmente em regiões remotas e carentes. Na época, o Brasil apresentava uma taxa de 1,8 médico por mil habitantes, significativamente inferior a países como Inglaterra (2,7) e Canadá (2,5), e muito aquém dos 6,2 médicos por mil habitantes de Cuba. O programa foi descontinuado durante o governo de Jair Bolsonaro, mas foi retomado em 2023 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sob a denominação de Agora Tem Especialistas.
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, Mozart Sales esclareceu que tanto o Mais Médicos quanto o atual programa têm como objetivo combater a escassez de médicos e não possuem motivações ideológicas. Ele explicou que a escolha por Cuba se deu pela sua expressiva formação médica, resultado de uma política governamental implementada na década de 1970 para ampliar o número de profissionais. “Cuba é o país com o maior número de formação de médicos no mundo por uma decisão do governo cubano na década de 1970 de expandir a formação médica. Portanto, por isso que foi Cuba. Não é uma questão ideológica ou porque tinha uma predileção pelo sistema político. Não. É porque eles tinham médicos em condição de fazer isso”, afirmou Sales.
Críticas à Expansão Desenfreada de Cursos de Medicina
Sales também criticou a proliferação de cursos de Medicina no Brasil, especialmente nos governos Temer e Bolsonaro, que, em sua visão, resultou na precarização da formação e na queda da qualidade do atendimento. “O Brasil tem hoje mais de 400 faculdades de medicina, que eu considero um número exagerado e completamente desarrazoado”, declarou. Ele mencionou o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) como uma ferramenta do Ministério da Educação para avaliar a qualidade dos médicos formados e para coibir a atuação de faculdades com baixa performance.
Agora Tem Especialistas: Foco na Agilidade Diagnóstica
O programa Agora Tem Especialistas prioriza a agilização dos processos diagnósticos. “Diagnóstico atrasado na doença como câncer gera perda de vida, gera morte, gera sofrimento, gera dor, gera perda de oportunidade de cura”, ressaltou Sales. O objetivo é equiparar o acesso à saúde especializada para todos os cidadãos brasileiros, assim como já ocorre para aqueles que possuem planos de saúde.
Desafios e Investimentos na Atenção Especializada
O programa Agora Tem Especialistas envolve um amplo espectro de ações e investimentos. Segundo Sales, já foram firmados contratos na modalidade de crédito financeiro, que prevê a troca de tributos federais pela prestação de serviços, totalizando R$ 300 milhões, com projeção de R$ 500 milhões, além de R$ 427 milhões para hemodiálise. A expectativa é alcançar R$ 1 bilhão em contratos nesta modalidade até meados do ano. Adicionalmente, foram destinados R$ 3,6 bilhões para cirurgias e procedimentos ambulatoriais, e R$ 300 a R$ 400 milhões para ressarcimento de planos de saúde. Essas iniciativas visam reduzir o tempo de espera, otimizar a gestão de filas e garantir atendimento no tempo adequado, especialmente em doenças como o câncer, onde o diagnóstico precoce é fundamental.
O Tempo de Garantia no Tratamento Oncológico
Sales destacou a importância do “tempo de garantia” para o diagnóstico e tratamento de câncer, estabelecido por lei em 30 e 60 dias, respectivamente. Ele explicou que, para certos tipos de câncer, cada semana de atraso no início do tratamento pode significar uma perda de 5% a 7% no tempo de sobrevida. “A cada semana em determinados tipos de câncer, dependendo do diagnóstico, do estadiamento, a cada semana de atraso no início do tratamento, cerca de 5% a 7% de tempo de sobrevida que se perde a cada semana de atraso. É algo que é inexorável, não se pode esperar”, concluiu.
