Por que a direita domina a internet (e você não percebeu)

A ilusão da internet progressista
Há cerca de uma década, a internet parecia ser o paraíso do progressismo. As redes sociais impulsionaram protestos como o Occupy Wall Street e a Primavera Árabe, unindo vozes contra a desigualdade e a opressão. Mark Zuckerberg, ao abrir o capital do Facebook, chegou a afirmar que sua plataforma daria voz a todos e transformaria a sociedade.
Mas a realidade provou ser bem diferente. A ideia de que a comunicação online derrubaria hierarquias e promoveria a igualdade ruiu. Estados autoritários também souberam usar as redes sociais a seu favor. E eventos como o Brexit e a eleição de Trump em 2016 revelaram o poder de persuasão desenfreado que mudou a política global.
A direita no controle da web
A socióloga Jen Schradie, professora do Sciences Po, na França, investigou essa mudança em seu livro “The Revolution That Wasn’t: How Digital Activism Favors Conservatives” (A Revolução Que Não Aconteceu: Como o Ativismo Digital Favorece os Conservadores, em tradução livre). Segundo ela, a direita simplesmente se adaptou melhor à internet do que a esquerda.
Entre 2011 e 2014, Schradie analisou mais de 30 grupos envolvidos em disputas por direitos de negociação coletiva para servidores públicos na Carolina do Norte. De grupos de base do Tea Party a organizações políticas conservadoras estabelecidas, passando por sindicatos e grupos progressistas de esquerda. Ela descobriu que fatores sociais como acesso à tecnologia, habilidades digitais, senso de poder e tempo disponível para cuidar de sites e redes sociais são determinantes para o sucesso online.
Enquanto o movimento Black Lives Matter se destacou no uso das redes sociais, Schradie argumenta que esse foi um caso atípico para o ativismo de esquerda. Classe social e idade também influenciam: quem tem mais educação, acesso a computadores e tempo para gastar online leva vantagem. Se você não tem internet em casa, nunca usou redes sociais e trabalha em dois empregos, a internet será menos útil do que os laços sociais existentes em igrejas, famílias e amigos.
A maioria das organizações de esquerda precisava alcançar as pessoas pessoalmente, atualizando listas de contato conforme as pessoas mudavam de endereço ou cancelavam planos de celular. E não tinham muita presença online porque ninguém tinha tempo ou habilidade para manter um site atualizado. Além disso, quem teme perder o emprego por defender um sindicato não quer se expor publicamente.
Hierarquia e ideologia
Contrariando a ideia de que a internet é uma força democrática, Schradie descobriu que grupos mais hierárquicos usam melhor as ferramentas online do que organizações não hierárquicas. Grupos horizontais ou sem líderes tendem a priorizar a construção de confiança por meio de encontros presenciais e evitam estratégias de comunicação centralizadas.
A ideologia também é um fator crucial. Para a direita, a luta é pela liberdade, e os evangelistas digitais usam a internet para divulgar sua verdade, sentindo que sua visão da realidade foi ignorada ou distorcida pela imprensa. Isso uniu organizações de base como o Tea Party a organizações conservadoras tradicionais e bem financiadas. Uma rede de veículos de direita compartilhou mensagens sobre sua verdade, amplificando-a.
Para a esquerda, a luta é por justiça, um conceito muito mais difícil de definir. Há mais negociação interna entre as organizações, aversão a tornar os desentendimentos públicos e menos coesão na mensagem transmitida.
O futuro do ativismo digital
“O foco da mídia no uso da tecnologia por movimentos de protesto de esquerda fez com que as pessoas olhassem em uma direção enquanto uma onda crescia fora de seu campo de visão”, escreve Schradie. Embora ela não especule se o ativismo digital influenciou a eleição de 2016, ela questiona a suposição de que a internet favorece movimentos de base e sem líderes. No fim das contas, riqueza, poder, uma mensagem convincente e laços institucionais fortes fazem a diferença.
Schradie conclui que a ascensão da direita não foi influenciada tanto por bolhas de filtro e arquiteturas digitais, mas sim pela forte crença e pela “onda de informação entre os conservadores que vinha se construindo há anos”.
O otimismo digital parece estar chegando ao fim. Na longa noite que se aproxima, ativistas digitais de todas as matizes tentarão aproveitar o potencial da internet para sua causa. Se a disparidade no ativismo digital continuar a aumentar, o futuro trará uma era em que apenas alguns cidadãos poderão fazer suas vozes serem ouvidas. Isso não apenas extinguiria o sonho de que a tecnologia pode ser uma força para o progresso, mas também a possibilidade de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Da redação do Movimento PB.
