Intolerância religiosa explode nas escolas: 9 em cada 10 educadores são vítimas

Perseguição religiosa nas escolas: um problema crescente
Uma pesquisa recente revela que a questão religiosa é um dos principais motivos de perseguição nas escolas brasileiras. O estudo do OLE (Observatório da Laicidade na Educação), ligado à UFF (Universidade Federal Fluminense), aponta que, de 2019 a 2025, foram registradas ao menos 51 denúncias de violações da laicidade em escolas e instituições públicas.
Segundo José Antônio Sepulveda, coordenador do OLE, os casos envolvem desde proselitismo religioso até perseguição a professores e funcionários, especialmente aqueles de religiões de matriz africana ou tradições não cristãs. “A autocensura é uma das principais consequências do racismo religioso”, afirma Sepulveda, destacando o impacto psicológico e profissional sobre os educadores.
Relatos de discriminação e autocensura
Isabella Silva, professora da rede municipal de Curitiba, relata que seus colegas se afastaram quando ela se declarou umbandista. “Como você vai contribuir com o planejamento pedagógico em conjunto se as pessoas não se comunicam com você por conta da sua religião?”, questiona, ilustrando o isolamento que muitos professores enfrentam.
Um estudo do ONVE (Observatório Nacional da Violência contra Educadores), em parceria com o Ministério da Educação, revela que 48% dos educadores que sofreram perseguição e censura nas escolas apontam a motivação religiosa como principal causa. O levantamento indica que 9 em cada 10 educadores já sofreram ou presenciaram algum tipo de perseguição e censura.
Temas polêmicos e impacto na vida dos educadores
As situações mais recorrentes envolvem proibições e recomendações para evitar temas considerados polêmicos, como questões políticas (73%), de gênero e sexualidade (53%), religiosas (48%), negacionismo científico (41%) e questões étnico-raciais (30%).
Fernanda Moura, pesquisadora do ONVE, destaca que temas que antes eram considerados canônicos nas disciplinas agora fazem com que muitos professores pensem duas vezes antes de abordar. Entre os educadores que sofreram perseguição ou censura, 71% relatam que sua vida profissional foi afetada, e 62% sentiram impactos em suas vidas pessoais. Além disso, 45% afirmam se sentirem constantemente vigiados e passaram a pensar mais sobre o que podem dizer ou não em sala de aula.
Danilo, professor de história, sociologia e artes em São Paulo, conta que foi chamado pela direção após abordar práticas culturais e religiosas, como oferendas em encruzilhadas, sendo o tema classificado como “aula de macumba”. O professor, que preferiu não divulgar o sobrenome, afirma que muitos docentes evitam assuntos relacionados à história e à cultura afro-brasileira por medo de represálias, mesmo sendo obrigatórios por lei.
Ataques à laicidade e o futuro da educação
Sepulveda, do OLE, denuncia um ataque à laicidade em diversas partes do Brasil, citando a aprovação de projetos que instituem a Bíblia como material paradidático e os “intervalos bíblicos”. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania mostram que, em 2024, as religiões de matriz africana foram as mais atingidas por intolerância religiosa.
Maritana Drescher, especialista em educação das relações étnico-raciais, alerta para o apagamento das identidades de matrizes africanas e a exaltação das identidades cristãs, com consequências como autocensura e ataques a professores e alunos. “Isso tem um impacto profundo, estrutural, emocional e pedagógico na aprendizagem das crianças e adolescentes”, afirma Drescher.
A Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria do Rio Grande do Sul publicaram medidas urgentes de combate ao racismo religioso nas escolas, incluindo formação continuada de professores e protocolos para acolhimento.
Em resposta, a Secretaria de Educação de Curitiba afirmou que eventuais denúncias de intolerância religiosa são tratadas com a máxima seriedade, e a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo reafirmou o princípio de laicidade.
Da redação do Movimento PB.
