O Inferno Secreto: Abusos e Sexismo Expostos na Nickelodeon

A onda de choque provocada pelos arquivos do Caso Epstein recentemente divulgados, acabou puxando de volta à cena midiática a série documental “Quiet On Set: The Dark Side Of Kids TV”, desvendando uma realidade sombria e perturbadora por trás das produções infantis da Nickelodeon. Lançada em 17 de março de 2024, a produção da Investigation Discovery joga luz sobre um ambiente de trabalho tóxico, assédio e, em casos chocantes, abuso sexual, que teria marcado os bastidores de programas icônicos como “All That”, “The Amanda Show”, “iCarly” e “Drake & Josh”.
No centro das acusações está Dan Schneider, o influente criador por trás de muitas dessas séries de sucesso. Embora Schneider tenha se desligado da Nickelodeon em 2018, as especulações sobre o conteúdo por vezes estranho e sexualizado de seus programas, além de dramas de alto perfil envolvendo estrelas mirins, como Amanda Bynes e Jamie Lynn Spears, sempre alimentaram dúvidas. A série documental se propõe a responder: o que realmente acontecia nos sets de Schneider?
A Confissão Chocante de Drake Bell
Um dos momentos mais impactantes de “Quiet On Set” é a revelação de Drake Bell, ex-estrela de “Drake & Josh”. Bell quebra o silêncio e detalha o abuso sexual que sofreu de Brian Peck, um preparador de diálogos e ator que trabalhou em “All That”. Peck, que era uma figura querida por muitos no elenco e por seus pais, foi posteriormente condenado por molestar Bell quando ele tinha 15 anos. A série expõe como Peck usou sua posição para isolar Bell de sua família e ganhar controle sobre o jovem ator. Apesar da condenação, o documentário aponta que Peck continuou a trabalhar em Hollywood, inclusive em produções do Disney Channel, um fato que levanta sérias questões sobre a proteção de crianças na indústria.
O Reinado Tóxico de Dan Schneider
Além dos casos de abuso sexual, o documentário pinta um retrato de Dan Schneider como um chefe volátil e abusivo. Ex-funcionários e colegas o descrevem como um egomaníaco temperamental, capaz de alternar entre um chefe divertido e um ditador beligerante. As acusações incluem:
- Sexismo explícito: Schneider supostamente pressionava mulheres a fazerem massagens e declarava que mulheres não eram capazes de escrever comédia. Ele negou esta última alegação.
- Exploração de roteiristas femininas: As ex-roteiristas Christy Stratton e Jenny Kilgen relatam terem sido contratadas para dividir um único salário e sofrerem assédio constante, incluindo humilhações públicas e ameaças de retaliação após tentarem reivindicar seus direitos. Kilgen, após ser humilhada, acabou processando a produtora por discriminação de gênero.
- Conteúdo questionável: Muitos entrevistados, incluindo atores e observadores, expressam desconforto com figurinos, piadas e esquetes que beiravam o inapropriado sexualmente, como fantasias fálicas e insinuações explícitas em nomes de personagens ou cenas.
- Favoritismo: Schneider demonstrava preferência clara por certos atores, sendo Amanda Bynes a mais notória. Esse favoritismo criava um ambiente competitivo e inseguro para as outras crianças.
Schneider negou ou contestou a maioria das alegações feitas na docussérie.
Falhas na Proteção de Talentos Mirins
O documentário também critica abertamente a Nickelodeon por sua falha em proteger seus jovens talentos. Além dos casos de Brian Peck e Jason Handy (outro funcionário condenado por conduta imprópria com um extra mirim), a série destaca uma cultura de exploração generalizada:
- Condições de trabalho: Atores mirins eram submetidos a longas jornadas de trabalho, situações desconfortáveis e, por vezes, assustadoras, como as “On Air Dares” (desafios no ar) de “All That”, que incluíam comer unhas dos pés ou ter manteiga de amendoim lambida por cães.
- Pressão estética e racismo: Katrina Johnson relembra ter sido chamada de “gorda demais”, enquanto Bryan Christopher Hearne e sua mãe relatam microagressões e até macroagressões raciais, com Hearne sendo escalado para um esquete que imitava um traficante de drogas em seu primeiro dia. A mãe de Hearne acredita que sua postura protetora levou à demissão do filho.
Em comunicado, a Nickelodeon afirmou que “não pode corroborar ou negar alegações de comportamentos de produções de décadas atrás”, mas que investiga todas as reclamações formais e prioriza o bem-estar de seus funcionários e crianças, tendo adotado “numerosas salvaguardas ao longo dos anos”. No entanto, a série sugere que a resposta da empresa na época foi inadequada, com executivos questionando os pais sobre experiências negativas de forma questionável.
“Quiet On Set” é um lembrete doloroso de como a indústria do entretenimento, por vezes, falha em proteger seus membros mais vulneráveis. A série não apenas expõe indivíduos, mas também o sistema que permite a perpetuação de tais abusos, chamando a atenção para a necessidade urgente de maior supervisão e responsabilidade no mundo do estrelato infantil.
Da redação do Movimento PB.
