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Pirarucu: De ícone amazônico a invasor temido no Brasil

Pirarucu: De ícone amazônico a invasor temido no Brasil
Pirarucu: De ícone amazônico a invasor temido no Brasil

O pirarucu (Arapaima gigas), uma espécie majestosa e um dos maiores peixes de escamas de água doce do mundo, é um verdadeiro símbolo da Amazônia. Em muitas regiões de seu habitat natural, no Norte do Brasil, ele é alvo de rigorosas políticas de conservação, por estar sob risco de extinção local. Contudo, fora de suas águas de origem, esse mesmo peixe se transforma em uma ameaça ambiental, atuando como um superpredador e desequilibrando ecossistemas inteiros, o que o leva a ser classificado como espécie invasora.

O dilema da Granja do Torto

Essa dualidade paradoxal ganhou destaque com o caso de 20 pirarucus encontrados no lago da Granja do Torto, em Brasília. Segundo relatos, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou sobre a necessidade de cozinhar os peixes, pois estariam dizimando outras espécies no local. O incidente na Granja do Torto é um exemplo claro de como uma espécie protegida em uma área pode ser vista como um problema grave em outra.

Um superpredador fora de seu habitat

Pesquisadores e órgãos ambientais alertam que, em ambientes onde não é nativo, o pirarucu ocupa o topo da cadeia alimentar sem ter coevoluído com as espécies locais. Isso o transforma em um superpredador, já que os peixes nativos não possuem defesas ou estratégias adaptadas à sua presença. No Rio Madeira, em Rondônia, por exemplo, o pirarucu é nativo apenas abaixo da antiga cachoeira de Teotônio. Acima da barragem da usina de Santo Antônio, sua presença é considerada invasora, com centenas de indivíduos e uma taxa de reprodução que gera milhares de filhotes anualmente, impactando populações de jatuarana, pacu e jaraqui.

A doutora em Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Carolina Doria, explica que o pirarucu compete por alimento e ataca outros predadores naturais, alterando drasticamente a dinâmica dos ecossistemas aquáticos. Jean Vitule, do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), compara a introdução do pirarucu à de um grande predador em um ambiente que nunca conviveu com ele, o que pode levar à extinção local de presas. Ele adverte contra a “naturalização” da espécie em áreas invadidas, um processo arriscado para a ecologia.

A expansão impulsionada pelo homem

A dispersão do pirarucu para áreas onde não existia naturalmente não foi um fenômeno espontâneo, mas resultado da ação humana. Estudos indicam que, nos anos 1970, exemplares foram levados da região de Iquitos, no Peru, para criadouros conservacionistas no Sudeste do Brasil. Escapes desses criadouros, somados a pisciculturas alagadas em cheias históricas, permitiram que o peixe se espalhasse pela bacia do rio Madre de Dios, alcançando a Bolívia e, décadas depois, diversos rios do Norte brasileiro. Casos como a captura de um pirarucu de 65 quilos em uma lagoa de Linhares, no Espírito Santo, reforçam a extensão do problema.

Legislação e o futuro do pirarucu

Diante desse cenário complexo, a legislação ambiental brasileira reflete a dualidade da espécie: o pirarucu é protegido em áreas amazônicas onde sua conservação é vital, mas sua pesca é permitida — e até incentivada — em regiões onde é classificado como invasor. Esse paradoxo sublinha o desafio de manejar uma espécie tão emblemática, equilibrando sua preservação em seu habitat natural com a necessidade de proteger a biodiversidade em outros ecossistemas ameaçados por sua presença.

Da redação do Movimento PB.

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