CulturaGeral

Visions du Réel: O Real em Xeque na Era da IA

Visions du Réel: O Real em Xeque na Era da IA
Visions du Réel: O Real em Xeque na Era da IA

O Festival Visions du Réel, realizado anualmente em Nyon, Suíça, consolidou-se como um epicentro do cinema documental, mas em sua 57ª edição, em 2026, a mostra lançou um olhar incisivo sobre a própria natureza da realidade em um mundo saturado por imagens e pela ascensão da inteligência artificial. A questão central que permeou a programação foi a capacidade da imagem de capturar o que ainda é genuinamente real em meio à instabilidade da percepção contemporânea.

Um Palco para a Reflexão Crítica

Mais do que um mero espaço de exibição, o Visions du Réel posicionou-se como um fórum de debate sobre a produção e disseminação de imagens. Em um cenário marcado pela rápida evolução tecnológica, pela proliferação de narrativas artificiais e pela crescente influência da IA, o festival celebrou um cinema que abraça a subjetividade e o ponto de vista como posturas éticas, rejeitando a ilusão de neutralidade. A edição de 2026 evidenciou essa tensão, apresentando filmes que integram a IA como ferramenta criativa e outros que a colocam como tema central, explorando seus impactos na confiança, na memória e na construção de narrativas.

O festival manteve um equilíbrio, evitando tanto a tecnofobia quanto a celebração cega da tecnologia, reafirmando seu compromisso com a transparência e a responsabilidade no fazer cinematográfico. O cinema do real foi, assim, reafirmado como um espaço de diálogo complexo entre a imagem, o mundo e o espectador.

O Brasil em Foco: Permanência e Resistência

O Brasil marcou presença na edição com duas obras impactantes. Saudades Eternas, dirigido pela francesa Emma Boccanfuso e coproduzido por Suíça e França, conquistou o Prix de la Critique Internationale – Prix FIPRESCI. O filme, ambientado na favela Chapéu Mangueira, no Rio de Janeiro, adota uma abordagem radical ao focar na vida dentro de uma casa, sob o domínio da matriarca Sueli. A violência, embora raramente mostrada explicitamente, é uma presença constante, sentida através do som fora de campo – tiros, o medo que molda os corpos e a rotina adaptada à imprevisibilidade. Ao evitar a espetacularização, o filme lança luz sobre os efeitos acumulados do estresse, da ansiedade crônica e do trauma coletivo, dialogando com episódios trágicos como a morte de Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, que se tornou símbolo da suspeição permanente e da violência de Estado como problema de saúde pública.

A espectadora brasileira Liliane Rodrigues Bacci descreveu a experiência: “Eu achei um filme que nos transporta a uma vida de quase confinamento na comunidade, mostrando a situação real, mas que com Sueli, que vive estressada, rimos muito. O filme mostra a violência policial, as mães solteiras, o jovem sem muita perspectiva e o a vida cotidiana de quem não tem muita escolha”.

A segunda produção brasileira, A Noite e os Dias de Miguel Burnier, de João Dumans, levou o olhar para o interior de Minas Gerais. O documentário acompanha os últimos moradores do distrito de Miguel Burnier, em Ouro Preto, cujas vidas foram transformadas pela instalação de um empreendimento minerário. O filme retrata a insistência da vida em meio ao abandono, ao desemprego e à ausência do poder público, focando na tentativa de sustentar vínculos e afetos em um horizonte futuro corroído. A resistência se manifesta não em discursos, mas na prática cotidiana de sobrevivência.

Diálogos sobre Desenvolvimento e Sacrifício

O diretor João Dumans ressaltou que o debate transcende a dicotomia progresso versus preservação. Para ele, o cerne da questão reside na distribuição desigual dos custos do desenvolvimento, onde certas vidas são tratadas como sacrificáveis. Dumans enfatizou a importância da educação e da escuta atenta às populações afetadas para romper ciclos históricos de abandono.

A seleção de filmes premiados no Visions du Réel 2026 reforça essa visão. Obras de diversas partes do mundo abordaram temas como migração, memória, transmissão intergeracional, conflitos e resistência, traçando uma cartografia de experiências humanas marcadas pela instabilidade, violência e pela busca por reconstrução.

Ao final de sua edição de 2026, o Visions du Réel reafirmou seu papel como um festival que desafia respostas fáceis. Em um tempo onde a IA questiona a autenticidade das imagens, o cinema do real demonstrou ser um exercício de atenção, responsabilidade e escuta. Entre algoritmos e vidas precárias, o festival lembrou que a ética da imagem reside na pergunta fundamental: a quem ela serve e a que custo?

[Wordie | MOD: MODELS/2.5-FL-LITE | REF: 69F104A3]