A “Doutrina da Negação”: Rubio admite que controle do petróleo venezuelano visa barrar China e Rússia, não abastecer os EUA
Enquanto as manchetes globais se concentram na imagem cinematográfica da prisão de Nicolás Maduro e sua transferência para o Distrito Sul de Nova York, uma admissão estratégica feita pelo Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, passou quase despercebida pelo ciclo de notícias mainstream. Em entrevista recente, Rubio desenhou o que pode ser considerado o novo corolário da Doutrina Monroe para 2026: a intervenção na Venezuela não é sobre a necessidade energética dos Estados Unidos, mas sobre a negação de recursos a potências rivais.
Ao ser questionado sobre a necessidade de os EUA “assumirem” a indústria petrolífera venezuelana, a resposta de Rubio revelou uma mudança tectônica na política externa de Washington. “Nós não precisamos do petróleo da Venezuela. Temos petróleo de sobra nos Estados Unidos”, afirmou o Secretário. A motivação real, segundo ele, é puramente de contenção geopolítica: impedir que China, Rússia e Irã acessem as reservas do hemisfério ocidental.
O petróleo como ferramenta de “quarentena geopolítica”
Historicamente, críticas à política externa dos EUA na América Latina giravam em torno da busca por recursos naturais para consumo interno. No entanto, a retórica de Rubio inaugura uma fase de interdição estratégica. O objetivo declarado não é a extração para benefício próprio imediato, mas garantir que o petróleo venezuelano permaneça inacessível aos adversários globais de Washington.
“Por que a China precisa do petróleo? Por que a Rússia precisa do petróleo deles? Este é o Hemisfério Ocidental, onde vivemos, e não permitiremos isso para adversários, competidores e rivais dos Estados Unidos”, declarou Rubio.
Esta postura sugere que as sanções e o controle dos navios petroleiros — que Rubio confirmou que continuarão a ser apreendidos — funcionam como uma “quarentena” de recursos. Para o analista atento, isso indica que a normalização econômica da Venezuela pode demorar mais do que o esperado pela oposição democrática, pois está condicionada não apenas à saída de Maduro, mas ao realinhamento total das exportações de Caracas para longe de Pequim e Moscou.
O desprezo pelos “especialistas de Oriente Médio”
Outro ponto que foge à cobertura tradicional foi o ataque direto de Rubio à classe de especialistas em política externa (“think tanks”) de Washington. Ao rejeitar comparações com as fracassadas mudanças de regime no Iraque e na Líbia, o Secretário de Estado classificou as análises convencionais como “a hora do palhaço” (clown hour).
Rubio argumentou que a intelligentsia americana passou décadas focada exclusivamente no Oriente Médio, ignorando as dinâmicas culturais e políticas da América Latina. “A Venezuela não se parece em nada com a Líbia, nada com o Iraque e nada com o Afeganistão”, insistiu.
Essa distinção é crucial para entender a estratégia atual: ao tratar a Venezuela como uma nação ocidental com “laços culturais profundos” com os EUA, a administração justifica uma intervenção que se assemelha mais a uma operação policial de larga escala do que a uma ocupação militar tradicional. Rubio reiterou diversas vezes que se trata de uma “função de aplicação da lei” (law enforcement), e não de uma guerra.
Democracia em segundo plano?
Para os observadores brasileiros que acompanham os desdobramentos, um silêncio na fala de Rubio é ensurdecedor: a falta de compromisso com eleições imediatas. Quando pressionado sobre um pleito nos próximos 30 dias, Rubio foi taxativo: “Acho que isso é prematuro neste momento”.
A prioridade da nova administração americana é clara: estabilização migratória e segurança nacional dos EUA primeiro; restauração democrática institucional depois. Rubio citou explicitamente o medo do Brasil e da Colômbia sobre novos fluxos migratórios como justificativa para a ação, alinhando o interesse de segurança de fronteira dos EUA com a estabilidade regional.
Contudo, a mensagem final é de Realpolitik pura. A “transição holística” que Washington propõe parece desenhada para instalar um governo que, antes de ser democrático, seja hermeticamente fechado à influência eurasiática. Para o Brasil, isso sinaliza um vizinho ao norte sob tutela estrita, onde a soberania energética será ditada pela lógica de segurança de Washington, e não necessariamente pelas necessidades de reconstrução de Caracas.
Por Redação do Movimento PB, traduzido e revidado pela editoria de política internacional e com base na entrevista concedida à NBC News. Link para a entrevista completa aqui.
