Alemanha abandona pacifismo histórico e articula maior poderio militar da Europa
Por Redação do Movimento PB — Com informações de artigo original em português, publicado em DW Brasil
Em uma guinada estratégica sem precedentes desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha oficializou sua intenção de se tornar a força militar mais robusta do continente europeu. Após décadas de uma postura pacifista e subfinanciamento das Forças Armadas (Bundeswehr), motivada pelo trauma histórico do nazismo, o governo alemão responde à instabilidade geopolítica atual com investimentos bilionários e uma reestruturação profunda de sua defesa.
O fim da era pacifista e o fator ucraniano
A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 atuou como o principal catalisador para esta mudança de paradigma. A percepção de segurança na Europa foi estilhaçada, levando o chanceler Friedrich Merz a declarar que a Alemanha deve possuir as forças armadas mais eficazes da região. O governo estima que um investimento de 108 bilhões de euros será necessário apenas para 2026, montante que equivale a aproximadamente R$ 670 bilhões.
Além da agressividade russa, a incerteza quanto ao papel dos Estados Unidos na OTAN — acentuada por possíveis mudanças na política externa americana sob um novo mandato de Donald Trump — obriga Berlim a assumir uma liderança militar que antes evitava. Analistas militares alemães trabalham com a projeção de que a Rússia poderá ter capacidade de atacar territórios da aliança atlântica até 2029, o que impõe uma urgência extrema ao rearmamento.
Drones camicazes e o salto tecnológico
Um dos pontos mais sensíveis da nova estratégia é a incorporação de drones de ataque, especificamente os chamados “drones camicazes”. Até recentemente, a Alemanha mantinha restrições éticas e políticas severas contra o uso de armamentos não tripulados para fins ofensivos, limitando-se a modelos de reconhecimento. A guerra moderna na Ucrânia demonstrou que a ausência dessa tecnologia torna qualquer exército vulnerável, forçando Berlim a encomendar mísseis guiados Heron TP de fabricação israelense.
A defesa antiaérea também é prioridade. Incidentes de violação do espaço aéreo em países da OTAN e atividades suspeitas perto de quartéis alemães acenderam o alerta para a necessidade de sistemas como o tanque antiaéreo Sky Ranger 30. O objetivo é criar uma rede de proteção eficaz contra incursões de drones russos, algo em que o país ainda reconhece ter lacunas técnicas importantes.
Desafios operacionais e aumento de efetivo
A reconstrução da Bundeswehr enfrenta obstáculos estruturais significativos. Atualmente, o exército alemão conta com cerca de 184 mil soldados, mas o plano de expansão prevê um salto para 460 mil militares, incluindo a reserva. Para sustentar esse contingente, o parlamento alemão já aprovou orçamentos para a compra de novos uniformes e equipamentos básicos, embora a logística para atingir esse número de pessoal ainda seja alvo de críticas e debates internos.
Especialistas apontam que, além do capital financeiro, a Alemanha precisa recuperar a “mentalidade de defesa”. A transição de um Estado que priorizava a diplomacia e o soft power para uma potência militar requer não apenas tecnologia, mas uma reforma na agilidade burocrática de suas aquisições militares, que historicamente é lenta e ineficiente.
A movimentação de Berlim redesenha o equilíbrio de poder na União Europeia. Ao assumir o protagonismo militar, a Alemanha não apenas busca proteger suas fronteiras, mas tenta consolidar a autonomia estratégica do bloco europeu frente a um cenário global cada vez mais hostil e imprevisível.
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