Ameaça de Trump ao Irã: Risco Nuclear Global é Real e Iminente

As recentes e intensificadas ameaças de Donald Trump contra o Irã, marcadas por um robusto movimento militar, acendem um alerta global. Em 28 de janeiro de 2026, Trump elevou o tom, sugerindo que, caso Teerã não cedesse às suas exigências, um ataque militar poderia ser desferido “com velocidade e violência”. Para sublinhar a seriedade da advertência, o Pentágono reposicionou o porta-aviões USS Abraham Lincoln, acompanhado de destróieres, bombardeiros e caças, em pontos estratégicos ao alcance do território iraniano.
As Exigências Americanas e a Estratégia de Trump
Entre as principais demandas da administração americana está o fim permanente do programa de enriquecimento de urânio do Irã. Washington também exige a limitação do desenvolvimento de mísseis balísticos e o corte do apoio de Teerã a grupos como Hamas, Hezbollah e Houthis no Oriente Médio. Trump parece enxergar neste momento uma oportunidade para pressionar o Irã, que, segundo ele, estaria enfraquecido por uma economia fragilizada e por intensos protestos que varreram o país no início de janeiro de 2026.
Contudo, analistas de segurança e proliferação nuclear expressam profunda preocupação. Qualquer ação militar dos EUA neste cenário poderia gerar consequências imprevistas e de longo alcance, incluindo uma perigosa aceleração da proliferação nuclear global, independentemente da capacidade do governo iraniano de sobreviver à crise atual.
Irã: Um Estado-Limiar e Seus Perigos
A queda da República Islâmica está longe de ser um resultado garantido, mesmo diante de uma intervenção militar. O Irã não é um Estado frágil; com uma população de 93 milhões e considerável capacidade estatal, possui um aparato coercitivo e instituições de segurança construídas para resistir a crises. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), seu braço militar, conta com centenas de milhares de membros e a capacidade de mobilizar forças auxiliares.
Após 47 anos de governo, as instituições da República Islâmica estão profundamente enraizadas na sociedade iraniana. Além disso, uma eventual mudança de liderança dificilmente traria um cenário de “página em branco”. O Secretário de Estado Marco Rubio admitiu em 28 de janeiro que não havia “resposta simples” sobre o que aconteceria se o governo caísse, destacando a fragmentação da oposição exilada e sua desconexão com as realidades internas.
Nesta incerteza reside um grande perigo: o Irã é um “estado-limiar”, uma nação com a capacidade técnica de produzir armas nucleares, mas que ainda não cruzou a linha final de produção. Um estado-limiar desestabilizado apresenta três riscos iminentes:
- Perda de comando centralizado sobre materiais e cientistas nucleares.
- Incentivos para facções monetizarem ou exportarem expertise.
- Uma lógica de aceleração, onde atores correm para garantir a dissuasão antes de um colapso total.
A história oferece alertas. O colapso da União Soviética nos anos 1990 gerou preocupações com o paradeiro de materiais nucleares. As atividades da rede A.Q. Khan, o “pai” do programa atômico do Paquistão, demonstraram como o conhecimento pode viajar, chegando à Coreia do Norte, Líbia e ao próprio Irã.
As Lições Dolorosas da Não Proliferação
Independentemente de uma mudança de regime, qualquer ação militar dos EUA tem profundas implicações para a proliferação global. O status do Irã como estado-limiar foi uma escolha de contenção estratégica. No entanto, os ataques de Israel e dos EUA às instalações nucleares iranianas em junho de 2025 – e as recentes ameaças de Trump – enviaram uma mensagem clara: o status de estado-limiar não oferece segurança confiável.
A mensagem para outras nações com aspirações nucleares é severa, construída sobre lições duras das últimas três décadas:
- A Líbia abandonou seu programa nuclear em 2003 em troca de relações normalizadas com o Ocidente, mas Moammar Gaddafi foi capturado e morto apenas oito anos depois, após ataques da OTAN.
- A Ucrânia renunciou ao seu arsenal nuclear em 1994 em troca de garantias de segurança de Rússia, EUA e Reino Unido. Vinte anos depois, em 2014, a Rússia anexou a Crimeia, antes de invadir o país em 2022.
Agora, o Irã se soma a essa lista: o país exerceu contenção no nível de limiar, mas foi atacado por bombas dos EUA em 2025 e agora enfrenta uma potencial nova investida. A lógica é clara, como expressou Mehdi Mohammadi, conselheiro iraniano, em 27 de janeiro: as exigências de Washington “significam desarmar-se para que possamos atacá-lo quando quisermos”. Se abandonar um programa nuclear leva à mudança de regime, renunciar a armas resulta em invasão, e permanecer no limiar convida a ataques militares, a segurança só é verdadeiramente alcançada pela posse de armas nucleares.
Se a liderança iraniana sobreviver a um ataque dos EUA, é quase certo que eles dobrarão a aposta em seu programa de armas.
A Credibilidade da AIEA e o Efeito Dominó
Ameaças ou ataques militares dos EUA para destruir um programa nuclear minam a arquitetura internacional de não proliferação. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) estava funcionando como projetado, detectando e verificando o programa iraniano. Ataques militares removem inspetores, interrompem o monitoramento e sinalizam que a conformidade não garante segurança. Se seguir as regras não oferece proteção, por que segui-las? Em jogo está a credibilidade da AIEA e a confiança em todo o sistema de diplomacia e monitoramento internacional.
Cada nação que avalia suas opções nucleares observa o desfecho deste impasse. A Arábia Saudita, rival regional do Irã, já manifestou ambições nucleares, com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman declarando que o reino buscaria armas atômicas se o Irã o fizesse. Um ataque dos EUA ao Irã não tranquilizaria os aliados do Golfo, mas poderia desestabilizá-los. Os ataques de 2025 foram para proteger Israel, não a Arábia Saudita. Líderes do Golfo podem concluir que a proteção americana é seletiva, levando-os a buscar segurança independente.
A cooperação de defesa da Arábia Saudita com o Paquistão, uma potência nuclear, representa uma forma de se proteger contra a imprevisibilidade americana. A Turquia, por sua vez, tem demonstrado interesse em capacidade nuclear independente, com o Presidente Recep Tayyip Erdoğan questionando em 2019 por que seu país não deveria possuir tais armas. Um ataque ao Irã, especialmente se a Turquia se opuser, poderia acelerar um programa de armas turco.
O efeito dominó nuclear provavelmente não pararia no Oriente Médio. Coreia do Sul e Japão permaneceram não nucleares em grande parte devido à confiança na dissuasão estendida americana. A proliferação regional e o risco de um Irã desestabilizado exportando seu conhecimento e tecnologia levantariam questões em Seul e Tóquio sobre a confiabilidade das garantias americanas.
As monarquias árabes do Golfo compreendem esses riscos, o que explica por que pressionaram a administração Trump contra uma ação militar, apesar da rivalidade com Teerã. A arquitetura de segurança regional liderada pelos EUA já está sob tensão e pode se fragmentar ainda mais se os parceiros do Golfo diversificarem suas alianças de segurança. Assim, as ameaças e potenciais ataques de Trump contra o Irã podem, paradoxalmente, resultar não em maior influência americana, mas em sua diminuição, enquanto a região se divide em esferas de influência concorrentes. E, talvez o mais alarmante, a lição para qualquer Estado com aspirações nucleares será que a segurança só é alcançável pela posse da bomba.
Da redação do Movimento PB.
