China desbanca Harvard e pode virar o jogo da educação global

Em uma reviravolta que chacoalha o cenário acadêmico mundial, universidades chinesas estão ascendendo rapidamente, superando instituições de prestígio como Harvard em novos rankings globais. O que antes era dominado por potências ocidentais, agora vê a China não apenas competir, mas liderar, impulsionada por uma estratégia ambiciosa de investimento, foco em inovação e uma cultura de competição acadêmica.
A Nova Ordem do Conhecimento Global
Até o início do século XXI, a China era conhecida por sua vasta força de trabalho e exportação de produtos manufaturados de baixo e médio custo. Contudo, nas últimas duas décadas, o governo chinês, através de um planejamento de longo prazo, redirecionou seus esforços e recursos para a inovação e pesquisa em setores de alto valor agregado, como biotecnologia, transição energética e inteligência artificial. Essa mudança estratégica transformou a academia chinesa em um celeiro de excelência científica e formação de talentos.
Um novo ranking elaborado pela Universidade de Leiden, na Holanda, que avalia a quantidade e a importância de pesquisas publicadas, é um testemunho dessa transformação. A China agora ocupa oito das dez primeiras posições, com a Universidade de Zhejiang e a Universidade Xangai Jiao Tong conquistando o primeiro e o segundo lugar, respectivamente. A renomada Harvard, dos Estados Unidos, aparece em terceiro. Outros rankings, como o da Times Higher Education, também mostram o avanço chinês, com a Universidade de Pequim superando Columbia e Cornell.
Investimento, Inovação e Metas Arrojadas
O sucesso chinês não é mero acaso. A área de educação é irrigada com 1,8% do vultoso Produto Interno Bruto (PIB) do país, cifra que, pela primeira vez, alcançou a média dos países desenvolvidos. No entanto, o dinheiro por si só não explica o fenômeno. Ele é aliado a metas arrojadas e serve como incentivo para talentos que impulsionam a inovação.
A Universidade de Zhejiang, apelidada de “Cambridge do Oriente”, exemplifica essa abordagem. Seu foco obsessivo em temas cruciais para a investigação científica resultou em trabalhos originais de grande impacto, como pesquisas sobre tratamento de câncer por meio de vírus e a criação da “fumaça congelada”, o sólido mais leve já concebido. Com mais de 700 mil ex-alunos, a instituição contribui ativamente para o desenvolvimento do país, formando uma tropa de elite do saber, conforme a política intensificada pelo presidente Xi Jinping. Como aponta Luís Paulino, diretor do Instituto Confúcio da Unesp, “A China sempre valorizou o estudo, mas, agora, ciência e tecnologia se tornaram o maior vetor de desenvolvimento”.
Atração de Talentos e Competição Implacável
Professores e pesquisadores são atraídos por vantajosas condições de trabalho, reconhecimento profissional e benefícios, como linhas de crédito facilitadas para imóveis. Em troca, eles precisam apresentar resultados concretos e publicar em revistas científicas de renome internacional. “Publicar estudos é essencial para obter recursos públicos destinados à pesquisa, um estímulo para que produzam mais e melhor”, explica Evandro Menezes, professor de direito da FGV-RJ.
Outro fator decisivo é a competição acirrada, que começa cedo. O ingresso nas universidades de ponta depende do sucesso no Gaokao, o maior e mais difícil vestibular do mundo, onde 13 milhões de estudantes competem por 10 milhões de vagas anualmente. Para as instituições que lideram o ranking de Leiden, o funil é ainda mais estreito. Essa cultura de excelência e dedicação ao estudo é profundamente enraizada na sociedade chinesa, que desde os tempos do filósofo Confúcio valoriza a educação como o que distingue os homens. Ao aplicar essa milenar lição, a China redefine a liderança acadêmica global.
Da redação do Movimento PB.
