Japão ‘esconde’ moradores de rua e ilude o mundo com falsa prosperidade

A Ilusão da Ordem: Como o Japão ‘Invisibiliza’ a Pobreza Urbana
O Japão, conhecido por sua imagem de eficiência e ordem, enfrenta um paradoxo: a aparente ausência de moradores de rua contrasta com a realidade de uma crise habitacional persistente. A estratégia do país para lidar com essa questão envolve redefinir quem é considerado sem-teto e onde essas pessoas podem estar para ‘contar’, resultando em estatísticas que minimizam o problema.
Em janeiro de 2025, o registro oficial apontou apenas 2.591 moradores de rua em um país com cerca de 124 milhões de habitantes. Esse número não reflete a complexidade da situação, pois exclui aqueles que vivem em abrigos, hospedagens temporárias ou soluções improvisadas.
Definições Legais Estreitas e a Realidade Oculta
A Lei de Autossustento para Sem-Teto, de 2002, define como sem-teto apenas aqueles que vivem em espaços públicos, como ruas e parques. Essa definição restritiva exclui uma parcela significativa da população vulnerável, criando um funil estatístico que não capta a verdadeira dimensão da pobreza urbana.
Moradores de rua que vivem em “doya” (alojamentos precários) ou cibercafés não são contabilizados, o que distorce ainda mais as estatísticas. Em Tóquio, Yokohama e Osaka, distritos como Sanya, Kotobuki e Kamagasaki abrigam milhares de pessoas em condições de vida marginalizadas.
A Invisibilidade como Estratégia de Sobrevivência
No Japão, moradores de rua muitas vezes tentam se misturar à multidão para evitar chamar atenção. Eles evitam pedir troco, procuram não parecer sujos e escondem seus pertences pela manhã. Esse comportamento reflete normas culturais que desaprovam a exposição pública da dificuldade, empurrando o problema para cantos menos visíveis da cidade.
A mendicância é proibida e pode ser tratada como crime, o que agrava ainda mais a situação. O urbanismo também contribui para a invisibilidade, com espaços públicos projetados para evitar a permanência de pessoas.
Abrigos Insuficientes e a Alternativa dos Cibercafés
Embora Tóquio possua cerca de 150 abrigos de longa duração, eles são frequentemente descritos como decadentes, superlotados e com regras rígidas. Muitos sem-teto preferem a rua ou alternativas menos expostas, como os cibercafés.
O fenômeno dos “refugiados de cibercafés” é uma realidade marcante. Estima-se que, em 2020, cerca de 15.000 pessoas viviam em cibercafés apenas em Tóquio, utilizando cabines com cadeiras reclináveis como moradia temporária.
Políticas Públicas e a Necessidade de uma Visão Ampla
Iniciativas governamentais do final dos anos 1990 e início dos anos 2000, como a Lei de 2002, centros de autoajuda e programas de assistência, ajudaram a reduzir o número de moradores de rua visíveis. No entanto, essas medidas não resolveram a raiz do problema: a falta de moradia acessível e a precarização que empurram pessoas para doya e cibercafés.
A pandemia de COVID-19 agravou a situação, com um aumento significativo na procura por cozinhas comunitárias e apoio à habitação. Quando os cibercafés fecharam temporariamente, Tóquio precisou reservar quartos de hotel para evitar um aumento imediato de moradores de rua visíveis.
O Paradoxo da Invisibilidade e suas Consequências
O Japão apresenta um quadro paradoxal: estatísticas que sugerem um país quase sem moradores de rua, enquanto a realidade se espalha por espaços marginalizados. A invisibilidade da pobreza urbana permite que políticas públicas sigam os números em vez das necessidades reais.
Para uma compreensão mais precisa da questão, é fundamental considerar nas estatísticas não apenas quem dorme na rua, mas também quem sobrevive em doya e cibercafés.
Da redação do Movimento PB.
