Minneapolis: Sair Para o Lixo Vira Risco de Vida com Caça a Imigrantes

Minneapolis vive um clima de terror e apreensão. O que antes era uma rotina simples, como sair de casa para tirar o lixo, transformou-se em um ato de coragem e risco para a comunidade imigrante. Desde dezembro do ano passado, a cidade se tornou palco de operações intensificadas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), que, segundo relatos, está caçando imigrantes em suas próprias vizinhanças.
O cenário é de pânico. O pastor Sergio Amezcua, líder da igreja evangélica Dios Habla Hoy, em Minneapolis, tem recebido ligações de emergência diariamente. Uma delas narra o desespero de um jovem que, ao perceber agentes patrulhando seu prédio, pulou da janela do terceiro andar para evitar a detenção. Ferido e descalço, em temperaturas abaixo de zero, ele conseguiu abrigo com vizinhos, mas o incidente é um reflexo da tensão que permeia a vida de muitos.
Medo e Perseguição em Minneapolis
Amezcua conta casos que ilustram a gravidade da situação: uma mãe ajoelhada com o bebê nos braços implorando para que não levassem seu marido, um homem se escondendo por horas em um canteiro de obras para escapar dos agentes. “Os agentes estão caçando pessoas comuns quando elas saem de seus apartamentos para tirar o lixo. É terrível o que está acontecendo em Minnesota“, desabafa o pastor, que se tornou um ponto de apoio crucial para a comunidade.
As ligações que chegam ao pastor vão desde pedidos de ajuda para localizar familiares detidos, conseguir advogados, até a necessidade básica de comida, leite e fraldas. Em muitos casos, a ajuda se estende ao pagamento de aluguel para famílias que, paralisadas pelo medo, veem suas fontes de renda serem afetadas.
A Justificativa e a Realidade
As operações do ICE em Minnesota, parte da “Operação Metro Surge”, mobilizaram mais de 2 mil agentes federais. O governo Trump justificou a intensificação da repressão nacional contra imigrantes indocumentados, anunciando que mais de 2,5 milhões de imigrantes indocumentados deixaram os EUA até 2025, com mais de 605 mil deportações.
A decisão de focar em Minnesota, um estado que abriga menos de 1% dos imigrantes indocumentados dos EUA, veio após escândalos de supostas fraudes em creches administradas por membros da comunidade somali. No entanto, a resposta da comunidade local tem sido de protesto, especialmente após as mortes de Renee Good e Alex Pretti, cidadãos americanos que resistiram às ações dos agentes.
O Trauma Coletivo
A detenção de Liam Conejo Ramos, um menino de 5 anos, junto com seu pai, em frente à sua casa, gerou indignação nacional. Embora o Departamento de Segurança Interna tenha negado que o ICE estivesse “visando uma criança”, o episódio evidenciou a brutalidade das operações. Liam e seu pai foram liberados dias depois, mas o trauma permaneceu.
O impacto do medo é generalizado. Amezcua relata que 80% de sua congregação parou de frequentar os cultos, incluindo cidadãos e residentes legais, temendo encontros com o ICE. O trauma se estende às crianças, que chegam a confundir entregadores de encomendas com agentes. Muitos imigrantes evitam escolas, hospitais e supermercados, isolando-se em suas casas para evitar o risco de detenção e deportação.
A Rede de Solidariedade
Em meio ao caos, a igreja Dios Habla Hoy emergiu como um farol de esperança. O pastor Amezcua lidera uma gigantesca operação de ajuda humanitária, distribuindo entre 175 e 200 toneladas de alimentos por semana para mais de 100 mil pessoas. O esforço é financiado por membros da igreja, bancos de alimentos e fundações, e conta com o apoio de 4 mil voluntários treinados para agir com discrição e segurança.
“É um esforço coletivo”, afirma o pastor. “Estamos aqui para ajudar, não para confrontar o governo. Não perguntamos quem tem documentos. Quem pede ajuda, nós ajudamos.” A rede de apoio fornece desde vegetais e frutas até produtos essenciais como fraldas e fórmula infantil. O desafio agora é conseguir um caminhão e um armazém para dar conta da crescente demanda.
O jovem que saltou do terceiro andar, símbolo da desesperança, felizmente sobreviveu e está se recuperando, um pequeno alívio em um cenário de grande sofrimento.
Da redação do Movimento PB.
