Saúde

Antibiótico mostra eficácia contra ataques de pânico

Antibiótico mostra eficácia contra ataques de pânico
Antibiótico mostra eficácia contra ataques de pânico

Nova esperança no tratamento do transtorno do pânico surge com o uso de um antibiótico. Pesquisa aponta minociclina como alternativa ao clonazepam, com potencial para reduzir inflamação cerebral.

Uma descoberta promissora pode revolucionar o tratamento de ataques de pânico. Um estudo, com apoio da Fapesp e realizado em colaboração entre a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indica que baixas doses de um antibiótico, a minociclina, podem ser tão eficazes quanto o clonazepam, medicamento amplamente prescrito para o transtorno do pânico.

Os resultados, publicados na revista Translational Psychiatry, foram observados tanto em experimentos com camundongos quanto em voluntários humanos. Em ambos os casos, a minociclina demonstrou capacidade de atenuar as respostas associadas aos ataques de pânico. A dosagem utilizada para fins psiquiátricos é inferior à empregada no combate a infecções bacterianas, o que minimiza o risco de desenvolvimento de resistência microbiana.

Mecanismo de ação: anti-inflamatório e não antibiótico

Beatriz de Oliveira, primeira autora do estudo e pesquisadora em iniciação científica, explica que, em modelos experimentais que induzem ataques de pânico com dióxido de carbono (CO2), camundongos tratados previamente com minociclina apresentaram redução em respostas panicogênicas. Em humanos, o tratamento com o antibiótico diminuiu a intensidade das crises de pânico desencadeadas pela inalação de CO2.

Luciane Gargaglioni, coordenadora do projeto e professora da Unesp, aprofunda a explicação sobre o mecanismo de ação. “É sabido que algumas condições psiquiátricas são resultantes da inflamação de células nervosas. Como a minociclina, em baixas doses, tem efeito anti-inflamatório e não necessariamente antibiótico, a melhora nos sintomas provavelmente se dá por meio da redução dessa inflamação”, afirma. Essa via de ação difere da do clonazepam, que atua diretamente no sistema nervoso central, inibindo receptores específicos.

O clonazepam, conhecido comercialmente como Rivotril, atua potencializando a ação do neurotransmissor GABA. No entanto, seu uso pode levar a efeitos colaterais como dependência, redução da capacidade de decisão e alterações nas frequências cardíaca e respiratória, devido à sua ampla distribuição no encéfalo. Cerca de 50% dos pacientes não respondem satisfatoriamente ao clonazepam, o que torna a minociclina uma alternativa promissora.

Potencial para estudos clínicos e novas descobertas

Por já ser um medicamento seguro e utilizado para outras finalidades médicas, a minociclina poderia avançar diretamente para fases clínicas mais avançadas, como a Fase 2, com um número maior de pacientes. O estudo também abre portas para a pesquisa de outras substâncias com propriedades anti-inflamatórias capazes de atuar nas micróglias, células imunes do sistema nervoso central, com potencial para tratamentos ainda mais eficazes.

Resultados em pacientes e modelos animais

A análise do sangue de 49 pacientes diagnosticados com transtorno do pânico revelou, após o tratamento com minociclina, a redução de citocinas pró-inflamatórias, como IL-2sRα e IL-6, e o aumento de IL-10, que modula a resposta inflamatória. Houve também diminuição da citocina TNFα, associada a processos inflamatórios.

Experimentos com camundongos expostos a 20% de CO2 para induzir ataques de pânico mostraram uma redução significativa em respostas comportamentais, como os saltos. Análises do locus coeruleus, uma região cerebral sensível ao CO2, indicaram uma diminuição na densidade de micróglias após a exposição ao gás, reforçando seu papel nos ataques de pânico.

Embora a adoção da minociclina como tratamento padrão para transtorno do pânico ainda dependa de estudos clínicos adicionais, a pesquisa representa um avanço importante, abrindo novas perspectivas para o manejo desta e de outras condições psiquiátricas associadas à inflamação neural.

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