Dormir em 2 minutos? O ‘método militar’ que viralizou e pode te frustrar!

A busca por um sono rápido e reparador é uma realidade para milhões de pessoas que sofrem de insônia ou dificuldades para adormecer. Em meio a essa procura, um suposto “método militar” viralizou na internet, prometendo induzir o sono em apenas dois minutos. No entanto, especialistas alertam que essa técnica, popularizada em plataformas como o TikTok, pode ser mais prejudicial do que benéfica, criando expectativas irreais e aumentando a frustração.
A Promessa Viral: Dormir em Dois Minutos
A técnica em questão, que ganhou notoriedade recente, tem suas raízes no livro “Relax and Win” (Relaxe e Vença), publicado em 1981 pelo treinador de atletismo americano Lloyd “Bud” Winter. Durante a Segunda Guerra Mundial, Winter desenvolveu esse método para ajudar aviadores da Marinha dos EUA a dormir sob condições de alta tensão, visando melhorar seu desempenho. As orientações incluem relaxamento muscular progressivo, controle da respiração e visualização mental para esvaziar a mente.
A promessa de Winter era que, com seis semanas de prática, os aviadores conseguiriam adormecer em dois minutos, “a qualquer hora do dia ou da noite, sob quaisquer condições”. Essa ideia de um sono quase instantâneo é o que cativou a internet, gerando milhões de visualizações em vídeos que demonstram suas etapas.
Especialistas Alertam: Perigo e Frustração
Apesar da popularidade, neurocientistas e psiquiatras do sono são céticos quanto à eficácia do método para a população em geral. Allison Brager, neurocientista militar e especialista em sono, classifica a afirmação de que é possível adormecer em dois minutos como uma “ideia perigosa”. Segundo ela, a maioria das pessoas leva entre cinco e 20 minutos para pegar no sono. Tentar atingir o impossível em apenas dois minutos, na verdade, pode gerar irritação e dificultar ainda mais o processo.
“Você irá ficar frustrado, tentando atingir algo que, honestamente falando, é impossível”, destaca Brager. Ela ainda alerta que adormecer em tão pouco tempo pode, na verdade, ser um sinal de privação crônica do sono ou de distúrbios não diagnosticados, e não um indicativo de sucesso.
Hugh Selsick, psiquiatra consultor de medicina do sono, corrobora essa visão. Ele afirma que, entre seus pacientes, o método militar não apresentou resultados positivos. “De forma geral, entre os pacientes que me consultaram e contaram sobre o método, ele não funcionou, caso contrário eles não teriam se sentado à minha frente”, conta ele.
Oito Horas de Sono: Um Mito Destrutivo?
Selsick também desmistifica a ideia de que oito horas de sono são um objetivo ideal e universal. Segundo ele, essa é uma crença que pode aumentar desnecessariamente a pressão sobre quem já tem dificuldades para dormir. “Esta ideia do sono de oito horas é um mito”, afirma, “e um mito bastante destrutivo.”
A quantidade ideal de sono varia significativamente entre os indivíduos, influenciada pela genética e outros fatores. O importante, segundo o especialista, é dormir o tempo necessário para se sentir alerta e descansado na maior parte do dia, na maioria dos dias. Ele compara a situação ao tamanho dos sapatos: não há um número mágico que sirva para todos.
O Que os Militares Realmente Fazem para Dormir?
Alex Rawcliffe, especialista em medicina e ciência do sono do Exército britânico, esclarece que o termo “método para dormir dos militares” é um tanto enganoso. As técnicas de respiração e relaxamento muscular progressivo são, de fato, ensinadas aos soldados, mas não são exclusivas ou inerentemente militares em seus mecanismos fisiológicos.
Para militares em ambientes desafiadores, o sono é otimizado através de ajustes práticos, como o uso de máscaras para os olhos e protetores auriculares. Além disso, soldados em funções de alta tensão são aconselhados a tirar “sonecas táticas” sempre que possível, reconhecendo que uma noite completa de sono nem sempre será viável. Embora sonecas não sejam recomendadas para quem busca dormir rápido à noite, podem ser estratégicas para pessoas com sono noturno fragmentado, como mães que amamentam.
A maior lição que os civis podem aprender com os militares, segundo Allison Brager, é a disciplina na criação de uma rotina de sono. O corpo se adapta rapidamente a um padrão consistente, sinalizando ao cérebro que é hora de relaxar. Isso inclui:
- Ir para a cama no mesmo horário todas as noites.
- Desligar o telefone celular.
- Ler um livro (em vez de usar telas).
- Apagar a luz em um horário fixo.
“O corpo irá se adaptar rapidamente e, se você fizer isso dia após dia, não terá problemas para adormecer”, conclui Brager. A chave para um sono de qualidade, portanto, reside mais na consistência e na paciência do que em promessas de soluções instantâneas.
Da redação do Movimento PB.
