Games e sensores: a nova arma secreta contra TDAH e autismo?

Uma revolução no tratamento de transtornos como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e TEA (Transtorno do Espectro Autista) está em curso, e ela vem em forma de games interativos. A startup brasileira Self Intelligence for Life, sediada em São José dos Campos e fundada em 2022, desenvolveu uma plataforma inovadora que combina jogos lúdicos, sensores biométricos e técnicas terapêuticas para auxiliar crianças a controlar suas emoções e melhorar a autorregulação.
O projeto, que conta com o apoio do programa PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) da FAPESP e do Sebrae SP, surge como uma alternativa promissora diante de um cenário de crescente demanda por ferramentas eficazes na saúde mental infantil. Dados recentes do Ministério da Saúde apontam um aumento alarmante de mais de 1.300% nos atendimentos por transtornos de ansiedade em crianças de 10 a 14 anos no SUS entre 2014 e 2024. Paralelamente, o número de estudantes com TEA matriculados na educação básica cresceu 44,4% entre 2023 e 2024, totalizando quase 919 mil alunos.
Como a Tecnologia Transforma a Terapia
A essência da plataforma reside na capacidade de monitorar o paciente em tempo real enquanto ele joga. Através de sensores, o sistema detecta sinais fisiológicos que indicam o estado emocional da criança. “A plataforma monitora a criança em tempo real por meio de sensores”, explica Gabriella Faria, engenheira biomédica e CEO da Self Intelligence for Life. “O jogo mede como está se sentindo e dá benefícios quando consegue se acalmar e fazer a autorregulação”. Em outras palavras, quando a criança consegue se acalmar e respirar adequadamente, ela é recompensada dentro do ambiente virtual, reforçando comportamentos positivos.
A ideia para essa abordagem inovadora nasceu da experiência de Faria durante seu mestrado em engenharia biomédica, onde integrava um grupo de pesquisa focado em técnicas de respiração e métodos não farmacológicos para redução de estresse. Uma colaboradora, a neuropsicopedagoga Renata Casali, frequentemente enfrentava o desafio de acalmar as crianças antes das sessões terapêuticas. Esse processo, que podia levar de 15 a 20 minutos, comprometia o tempo e a efetividade do tratamento. A plataforma surge como uma solução direta para essa lacuna.
Design Sensível e Jogos Sob Medida
Embora inicialmente desenvolvida para TDAH, a tecnologia se mostrou eficaz também para crianças com TEA e sintomas de ansiedade. O design dos jogos é cuidadosamente elaborado, considerando as especificidades desse público. Sons, cores e estímulos visuais são pensados para atender crianças com maior sensibilidade sensorial, evitando sobrecarga e promovendo um ambiente seguro e acolhedor.
O sistema é composto por sensores biométricos, um aplicativo com diversos jogos e uma plataforma de gestão para os terapeutas. Os sensores, disponíveis em formatos como cinta torácica, braçadeira e clipe de orelha, monitoram a variabilidade da frequência cardíaca – um indicador validado para medir os níveis de estresse. A tecnologia, similar à encontrada em smartwatches, é processada com métricas específicas para fins terapêuticos.
Atualmente, a plataforma oferece oito jogos com níveis de complexidade variados. Em um deles, a criança aprende padrões respiratórios controlados ao respirar junto com uma baleia. Outro, considerado um dos mais desafiadores, envolve um caranguejo que precisa organizar objetos em ordem correta enquanto o jogador mantém a calma e a respiração controlada sob pressão. Cada sessão de jogo dura cerca de três minutos, tempo suficiente para gerar resultados perceptíveis.
O Papel Fundamental do Terapeuta e o Uso Consciente
Apesar da tecnologia avançada, o terapeuta mantém um papel central no processo. Ele é responsável por planejar as sessões, selecionar os jogos mais adequados para cada criança e introduzir os sensores de forma lúdica e desmistificada. “Ele fala para a criança que ela vai ouvir o próprio coração, que a baleia precisa de ajuda para se acalmar e por aí vai”, explica Faria.
A startup também desenvolveu uma trilha de jogos adaptada, com opções mais simples para crianças com TEA, que podem se frustrar facilmente, e mais estimulantes para quem tem TDAH, que necessitam de maior engajamento. A preocupação com o uso consciente de telas é uma prioridade. A recomendação é que a plataforma seja utilizada como um exercício físico: sessões curtas e regulares (até três sessões diárias de três minutos em casa) trazem melhores resultados do que o uso prolongado. O uso é indicado exclusivamente durante o acompanhamento clínico, sempre sob supervisão profissional.
Ao final de cada sessão, o terapeuta tem acesso a relatórios detalhados, que incluem métricas do sensor, tempo de jogo e desempenho da criança, permitindo um acompanhamento preciso da evolução e a possibilidade de compartilhar o progresso com os pais.
Olhando para o Futuro
A Self Intelligence for Life já planeja a expansão da plataforma. Novos jogos serão lançados periodicamente para desenvolver outras habilidades, incluindo opções voltadas para dificuldades fonéticas e personalização avançada com inteligência artificial. A empresa também visa atender outras faixas etárias, desenvolvendo versões menos infantis para adolescentes e adultos. Essa abordagem inovadora promete transformar a maneira como transtornos de atenção e emocionais são abordados, tornando o tratamento mais acessível, engajador e eficaz.
Da redação do Movimento PB.
