Genética: DNA dita sucesso e efeitos de canetas emagrecedoras

Variações genéticas em dois genes específicos podem explicar, em parte, por que algumas pessoas respondem muito bem a tratamentos com canetas emagrecedoras, perdendo peso significativamente, enquanto outras obtêm resultados mínimos. O mesmo perfil genético também está associado à maior ou menor incidência de efeitos colaterais, como náuseas e vômitos, segundo um estudo recente publicado na revista Nature.
Genes GLP1R e GIPR: Chaves para a resposta individual
Cientistas identificaram que alterações em dois genes – GLP1R e GIPR – desempenham um papel crucial na resposta individual a medicamentos como semaglutida e tirzepatida. Esses genes são responsáveis pela produção de receptores para hormônios intestinais que regulam o apetite, a liberação de insulina e a digestão. Drogas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro atuam mimetizando e amplificando a ação desses hormônios.
O estudo, que analisou dados de 27.855 usuários das canetas emagrecedoras, revelou que, em média, os participantes perderam cerca de 11,7% do peso corporal em pouco mais de oito meses. No entanto, a variação foi expressiva, com alguns perdendo quase 30% e outros, praticamente nada. Essa disparidade levou os pesquisadores a investigar a base genética da resposta ao tratamento.
A influência da variante rs10305420 no gene GLP1R
Uma variante comum no gene GLP1R, identificada como rs10305420, que resulta na troca de um aminoácido, mostrou uma associação clara com a perda de peso. Indivíduos que carregam uma cópia dessa variante perdem, em média, 0,64% a mais de peso corporal, enquanto aqueles com duas cópias observam um ganho de 1,28%. Embora o efeito individual seja modesto, sua relevância se torna significativa em larga escala populacional.
Curiosamente, essa mesma variante genética também está ligada a um risco aumentado de náuseas e vômitos induzidos pelo tratamento. Essa descoberta reforça a hipótese de que parte da eficácia dessas drogas na perda de peso pode estar relacionada à indução de desconforto gastrointestinal em certos indivíduos.
Variações no GIPR e o risco de efeitos colaterais
No gene GIPR, o estudo apontou uma variante associada a episódios de vômito em usuários de tirzepatida, medicamento que atua tanto nos receptores GIP quanto GLP-1. Essa variante frequentemente coexiste com outra que prejudica a função do receptor GIP. Os pesquisadores especulam que, nesses casos, a capacidade do componente GIP da tirzepatida de mitigar os efeitos colaterais gastrointestinais pode ser comprometida, aumentando a probabilidade de vômitos.
Cerca de 0,6% das pessoas de ascendência europeia com as variantes de risco em ambos os genes (GLP1R e GIPR) podem ter até 15 vezes mais chances de experimentar vômitos com a tirzepatida em comparação com indivíduos sem essas variantes.
Fatores adicionais e o futuro da personalização do tratamento
Além dos fatores genéticos, outros elementos influenciam a resposta ao tratamento. Mulheres, pessoas mais jovens, sem diabetes tipo 2 e que utilizam doses mais altas ou por períodos mais longos tendem a perder mais peso, mas também relatam maior incidência de náuseas e vômitos.
Apesar dos avanços, o estudo ressalta que os genes GLP1R e GIPR explicam apenas cerca de 25% da variação na resposta ao tratamento. Os 75% restantes permanecem um mistério a ser desvendado em pesquisas futuras. A confirmação desses achados em estudos independentes é essencial.
No futuro, a integração de informações genéticas com dados clínicos e de estilo de vida poderá permitir aos médicos a personalização dos tratamentos, auxiliando na escolha do medicamento mais adequado, na dosagem ideal e na identificação de pacientes com maior risco de intolerância a certas drogas.
