Gordura corporal vai além do peso: novas descobertas revelam papel crucial na imunidade e pressão arterial

Por Redação do Movimento PB — Com informações de artigo original em inglês, publicado em New Scientist
Se você ainda acredita que a gordura corporal é apenas um depósito passivo de calorias indesejadas, é hora de repensar. Evidências científicas recentes indicam que o tecido adiposo desempenha funções vitais para a saúde, influenciando desde o humor e a saúde óssea até, conforme revelam novos estudos, a regulação da pressão arterial e o sistema imunológico.
Embora o excesso de gordura continue sendo prejudicial, pesquisas publicadas em janeiro de 2026 trazem uma nova camada de complexidade sobre como diferentes tipos de gordura atuam no organismo humano.
Nem toda gordura é igual
A gordura não é um tecido uniforme. Ela existe em diversas formas, cada uma com funções específicas:
- Gordura branca: Armazena energia e libera hormônios que influenciam o metabolismo;
- Gordura marrom: Especializada na geração de calor;
- Gordura bege: Um meio-termo capaz de ativar a produção de calor sob certas condições.
Além do tipo, a localização é determinante. Enquanto a gordura subcutânea (sob a pele) é geralmente menos nociva, a gordura visceral — localizada profundamente no abdômen — possui forte ligação com inflamações, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas.
O papel imunológico da gordura intestinal
Um dos estudos recentes, liderado por Jutta Jalkanen no Hospital Universitário Karolinska, em Estocolmo, mapeou a arquitetura celular da gordura visceral. A equipe descobriu que a gordura epiploica, que envolve o intestino grosso, é extraordinariamente rica em células imunes e células de gordura especializadas que produzem proteínas inflamatórias.
Os pesquisadores observaram que produtos microbianos originados no intestino acionam essas células de gordura, que por sua vez ativam as células imunes vizinhas. Segundo Jalkanen, isso sugere que os depósitos de gordura são especializados conforme sua localização anatômica.
“O intestino está constantemente exposto a nutrientes e microrganismos. Ter tecido adiposo por perto que pode sentir, responder e ajudar a coordenar reações imunes pode fornecer uma camada adicional de proteção.” — Jutta Jalkanen, pesquisadora.
No entanto, em casos de obesidade, esse sistema pode se tornar cronicamente superativado, contribuindo para a inflamação de baixo grau associada a condições metabólicas.
Gordura e o controle da pressão arterial
Outra descoberta surpreendente, vinda da Universidade Rockefeller em Nova York, conecta a gordura ao controle da pressão arterial. A equipe liderada por Mascha Koenen investigou o tecido adiposo perivascular, uma camada rica em gordura bege que envolve os vasos sanguíneos.
O estudo demonstrou que, em camundongos geneticamente modificados para perder essa gordura bege, os vasos sanguíneos tornaram-se mais rígidos e hipersensíveis a sinais hormonais de constrição, elevando a pressão arterial.
Os cientistas identificaram o culpado: uma enzima chamada QSOX1. Quando liberada por células de gordura disfuncionais, essa enzima causa danos aos vasos. O bloqueio da QSOX1 normalizou a pressão arterial nos testes, independentemente do peso corporal.
Mudança de paradigma
Essas descobertas sugerem que futuras terapias podem focar menos na simples redução de massa gorda e mais na restauração das funções benéficas do tecido adiposo. A manutenção da atividade da gordura bege ou a modulação da comunicação entre gordura e sistema imune surgem como caminhos promissores.
Paul Cohen, pesquisador da Universidade Rockefeller, reforça que a visão científica sobre a gordura mudou drasticamente desde os anos 90. De um “simples saco de células”, o tecido adiposo passou a ser reconhecido como um órgão complexo, com diversos tipos celulares e processos que vão muito além do armazenamento de nutrientes.
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