Filme com Caio Blat e Luisa Arraes Transporta Sertão de Guimarães Rosa para a Favela do Presente

A adaptação de “Grande sertão: veredas” de Guimarães Rosa para um cenário urbano moderno traz novos desafios e perspectivas, mantendo a essência do texto original.


No novo filme “Grande sertão”, dirigido por Guel Arraes e roteirizado em parceria com Jorge Furtado, o clássico romance de João Guimarães Rosa ganha uma releitura ousada. A história, originalmente ambientada no sertão brasileiro, é transportada para uma favela contemporânea, onde os conflitos entre jagunços são reinterpretados como disputas entre policiais e criminosos.

Um Desafio de Adaptação

Adaptar a prosa complexa e poética de Guimarães Rosa sempre foi um desafio para cineastas brasileiros. Guel Arraes, conhecido por sua adaptação de “O auto da compadecida”, destaca a dificuldade de preservar a prosódia única do autor, especialmente em cenas inéditas no livro. A decisão de transpor a narrativa para um cenário urbano contemporâneo foi tomada logo no início do projeto, com o objetivo de contribuir para a obra sem apenas ilustrar a história original.

Elenco e Produção

Os protagonistas Riobaldo e Diadorim são interpretados por Caio Blat e Luisa Arraes, respectivamente. No filme, Riobaldo entra para o mundo do crime por amor a Diadorim, um segredo que se revela crucial para a trama. A produção busca manter a fidelidade ao texto de Guimarães Rosa, ao mesmo tempo em que explora novas dimensões temáticas e visuais.

Outras Adaptações Notáveis

A obra de Guimarães Rosa já foi adaptada para o cinema e a televisão várias vezes. Entre os exemplos notáveis estão:

  • “A hora e a vez de Augusto Matraga” (1965) de Roberto Santos.
  • “Cabaret mineiro” (1984) de Carlos Alberto Prates Correia.
  • “Outras estórias” (1999) de Pedro Bial.
  • “Mutum” (2007) de Sandra Kogut.

Pedro Bial, que dirigiu “Outras estórias”, elogia a nova adaptação de Guel Arraes pela sua fidelidade ao texto original e sua capacidade de manter a essência literária de Rosa intacta.

A Universalidade da Obra de Rosa

Bia Lessa, que também está lançando sua própria adaptação de “Grande sertão: veredas” intitulada “O diabo na rua, no meio do redemunho”, destaca a dimensão metafísica da obra de Guimarães Rosa. Para ela, a maior dificuldade é fazer um filme que seja fiel à profundidade do texto sem reduzi-lo. A diretora enfatiza que a literatura de Rosa é tão bem resolvida que qualquer adaptação corre o risco de empobrecer a obra, mas também oferece inúmeras possibilidades.

Atração e Desafios

Sérgio Rezende, cineasta que lançou o documentário “Sertão sertões” (2024), conta que seu fascínio pela paisagem semiárida foi influenciado por obras como “Grande sertão: veredas” e “Os sertões” de Euclides da Cunha. Ele ressalta que a adaptação da literatura de Rosa para o cinema requer uma compreensão profunda do sertão arcaico, algo que ele buscou em suas próprias viagens e filmagens.

A constante atração de cineastas pela obra de Guimarães Rosa, desde os primeiros filmes até as adaptações mais recentes, reflete a riqueza e complexidade do seu universo literário. A obra do autor impõe inúmeros desafios, mas também abre um leque de possibilidades criativas, tornando cada adaptação uma nova forma de explorar e celebrar a cultura e a realidade brasileira.

Reflexão Final

A adaptação de “Grande sertão: veredas” para um contexto moderno e urbano, mantendo a essência do texto original, é uma prova da universalidade e atemporalidade da obra de Guimarães Rosa. É uma ousada tentativa de trazer à tona temas e conflitos que ainda ressoam na sociedade contemporânea, mostrando que o sertão pode ser tanto um lugar físico quanto uma metáfora para a condição humana.