Amorim: Exclusão do Brasil de aliados dos EUA é ruptura inédita

Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, classificou como um marco de ruptura inédita a decisão do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de excluir o Brasil do grupo de países considerados aliados de Washington na América Latina. Em declaração à Folha de S. Paulo, o ex-chanceler afirmou não encontrar paralelo para o episódio nos 202 anos de relações diplomáticas entre os dois países, mesmo em momentos de forte tensão política.
Declaração impressionante e preocupante
“A declaração de Rubio é inédita. Nem quando o Dean Rusk e o Lincoln Gordon estavam conspirando para derrubar o presidente João Goulart, um secretário de Estado excluiu o Brasil da lista de países amigos”, afirmou Amorim. Para o ex-ministro, a fala do chefe da diplomacia americana representa um gesto político incomum e potencialmente relevante para a relação bilateral. “É uma declaração impressionante e preocupante. Precisamos ver o que ocorrerá a partir disso, mas nem quando havia conspiração essa situação foi formalizada”, acrescentou ao jornal.
O que disse Rubio
A controvérsia surgiu durante uma audiência de Marco Rubio no Senado dos Estados Unidos. Ao defender a política externa do governo Donald Trump, o secretário afirmou que Washington conta atualmente com uma rede de países alinhados aos interesses americanos na América Latina. Na sequência, citou exceções a essa avaliação: “Com exceção da Nicarágua, de Cuba, obviamente da Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e do Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em certa medida, também do atual governo da Colômbia, ou pelo menos de seu presidente, que tem sido problemático, de modo geral trata-se agora de uma região repleta de aliados dos EUA”, declarou.
A inclusão do Brasil ao lado de governos historicamente criticados por Washington chamou atenção em Brasília e ampliou a percepção de deterioração das relações entre os dois países.
Sequência de pressões
A fala ocorreu em meio a uma sucessão de medidas adotadas pela administração Trump que vêm gerando desconforto no governo brasileiro. Na segunda-feira (1º), o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu uma investigação contra o Brasil e recomendou a aplicação de tarifas de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros, citando temas como Pix, comércio digital, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. Dias antes, o Departamento de Estado havia anunciado a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Novo foco de atrito
A pressão aumentou novamente nesta quarta-feira (3), quando os Estados Unidos incluíram o Brasil em uma investigação sobre trabalho forçado e propuseram uma tarifa adicional de 12,5% para países considerados falhos no combate à circulação de produtos associados a esse tipo de prática. O relatório apontou que o Brasil não possui uma proibição legal específica para a importação de mercadorias produzidas total ou parcialmente com trabalho forçado em outros países.
Com isso, em menos de uma semana, Brasília passou a enfrentar três frentes simultâneas de tensão com Washington: segurança pública, comércio exterior e regras trabalhistas. Nos bastidores do governo Lula, a avaliação é que as declarações de Rubio e a sequência de medidas anunciadas pela administração Trump indicam um endurecimento da posição americana em relação ao Brasil. Embora as tarifas propostas ainda dependam de consultas públicas e de decisão final da Casa Branca, integrantes do Planalto enxergam um componente político crescente nas ações adotadas por Washington. A reação de Amorim reflete justamente essa leitura, sinalizando que o governo vê a exclusão do Brasil da lista de países amigos não apenas como uma divergência diplomática, mas como um marco simbólico na relação bilateral.
