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Ouro Preto: Grafismos Raros Revelam Vidas Escondidas da Escravidão

Ouro Preto: Grafismos Raros Revelam Vidas Escondidas da Escravidão
Ouro Preto: Grafismos Raros Revelam Vidas Escondidas da Escravidão

Uma descoberta arqueológica no centro histórico de Ouro Preto, em Minas Gerais, está reescrevendo capítulos da história da presença africana no Brasil colonial. Grafismos e inscrições preservados no porão de um casarão de aproximadamente 260 anos, localizado na Rua Conde de Bobadela, oferecem um vislumbre inédito das vivências e expressões culturais de pessoas escravizadas.

Registros Inéditos em Porão Colonial

Os vestígios foram encontrados durante obras de restauração em um sobrado que, por suas características de difícil acesso, pouca ventilação e ausência de energia elétrica até a década de 1980, tornou-se um refúgio para a preservação de imagens ao longo dos séculos. Especialistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) conduzem as pesquisas, liderados pelo historiador e arqueólogo Leonardo Klink, que considera o achado singular até mesmo em pesquisas internacionais sobre a diáspora africana.

O Que Revelam os Grafismos

Cerca de 26 inscrições e desenhos, executados com diversas técnicas – de riscos gravados diretamente na parede a pigmentos escuros e avermelhados –, foram identificados. Parte das imagens, desgastadas pelo tempo, só pôde ser plenamente visualizada com iluminação especial e tratamento digital. Entre os elementos retratados, destacam-se figuras humanas, aves, embarcações, símbolos geométricos, vegetação e animais que remetem a felinos africanos. Há também representações com forte ligação a práticas culturais e religiosas de matriz africana.

Um dos desenhos retrata pessoas em um espaço com muros e torres, lembrando referências históricas do interior da África Ocidental. Outra imagem relevante é uma máscara, associada a tradições da África Centro-Ocidental. Um terceiro registro, que intriga os pesquisadores, mescla características humanas e animais, com chifres e dentes pontiagudos, permanecendo em interpretação.

Singularidade e Contexto Histórico

A raridade da descoberta reside não apenas na quantidade e diversidade dos desenhos, mas na sua preservação em um contexto urbano. A própria argamassa da parede parece ter sido preparada para receber as inscrições, e a variedade de estilos sugere um processo colaborativo entre diferentes indivíduos escravizados. Estima-se que os autores tenham vivido no imóvel entre a segunda metade do século XVIII e as primeiras décadas do XIX, período de intensa circulação de africanos e seus descendentes na antiga Vila Rica.


Grafismos encontrados em casarão colonial podem revelar novas dimensões da presença africana em Ouro Preto – Crédito: Leonardo Klink/ Divulgação
Grafismos encontrados em casarão colonial podem revelar novas dimensões da presença africana em Ouro Preto – Crédito: Leonardo Klink/ Divulgação

Esses achados desafiam a visão simplificada de espaços como meras senzalas urbanas. Os pesquisadores propõem que esses ambientes podem ter funcionado como locais de autonomia simbólica, memória, resistência e preservação cultural, mesmo sob as severas limitações do sistema escravista. A diversidade de grupos africanos que chegaram a Minas Gerais, identificados por termos como “mina”, “congo” e “angola”, reforça a complexidade dessa população.

Preservação e Futuro Acesso

O imóvel está passando por adequações exigidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para garantir a conservação das inscrições. Um parecer técnico de março de 2026 recomendou a homologação do local como sítio arqueológico “Inscrições Afrodiaspóricas”. O IPHAN reconhece a relevância nacional do conjunto, por preservar vestígios das práticas culturais, religiosidade e estratégias de resistência de pessoas escravizadas. A expectativa é que, após as medidas de conservação, o local possa futuramente integrar roteiros de visitação e pesquisa sobre a diáspora africana no Brasil.

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