Agualusa propõe “Língua Geral” para o português e debate herança colonial

O aclamado escritor angolano José Eduardo Agualusa reacendeu um debate sobre a identidade e a formação da língua portuguesa ao propor a substituição de sua nomenclatura oficial. Em sua visão, o termo “português” carrega uma referência colonial que não reflete a rica tapeçaria de influências culturais que moldaram o idioma ao longo dos séculos. Agualusa defende a adoção de um novo nome, como “Língua Geral”, que melhor representaria a natureza plural e coletiva do idioma compartilhado por Angola, Brasil, Portugal e outros países lusófonos.
Um idioma de encontros e influências
Agualusa, que participa do festival cultural Remexe Rio no Rio de Janeiro, argumenta que o português moderno é o resultado de um intenso intercâmbio com diversas línguas e culturas. Ele destaca contribuições significativas de idiomas como o árabe, kimbundo, guarani, kikongo, umbundo e macua, cujas influências são perceptíveis no vocabulário, na fonética e na própria identidade cultural dos falantes. Palavras como “cafuné” (do kimbundo), “capim” (do guarani) e “oxalá” (de origem árabe) são exemplos de como o idioma absorveu e integrou elementos de diferentes origens.
A proposta de Agualusa visa apagar a conotação colonial do nome “português” e celebrar o idioma como uma “construção coletiva e viva”. Ele vê a “Língua Geral” como um território de encontros e afetos, moldado por séculos de convivência, resistência e transformação cultural em diferentes continentes.
Debate e lançamento de livro no Rio de Janeiro
A discussão sobre a nomenclatura da língua portuguesa ocorrerá neste sábado, às 17h30, no Paço Imperial, durante uma conversa entre Agualusa e o escritor português Marco Franco. O evento, parte do festival Remexe Rio, é gratuito e aberto ao público, transformando um local historicamente ligado à chegada da família real ao Brasil em um palco para debates sobre cultura, linguagem e identidade lusófona.
Além da discussão sobre o nome do idioma, o festival também marca o lançamento do novo romance de Agualusa, ‘Tudo sobre Deus’. A obra, ambientada no deserto angolano, explora temas como finitude, culpa, redenção e memória, consolidando o autor como uma voz proeminente na literatura lusófona contemporânea.
Encantamento e preocupação com o Brasil
Em sua passagem pelo Rio de Janeiro, Agualusa compartilhou suas impressões sobre o Brasil. Ele expressou encantamento com a alegria, a generosidade e o legado cultural africano, que se manifestam em formas de arte como o samba e na culinária. “Eu gosto do Brasil que inventou o samba, que acolheu o cafuné e o calulu, que sabe tocar e abraçar”, afirmou.
Por outro lado, o escritor demonstrou preocupação com o aumento da intolerância, do rancor e da brutalidade no país, fenômeno que ele observa como parte de um movimento global. Agualusa ressaltou a importância de reconhecer a riqueza e a diversidade do idioma, celebrando-o não apenas como herança colonial, mas como uma construção plural e em constante evolução.
