O “Negacionismo Digital” e o Silêncio da Curadoria: O Fim da Eldorado sob a Ótica de Quem Faz o Rádio
O encerramento da Rádio Eldorado FM (107.3) está marcado para 15 de maio de 2026. Uma frequência de São Paulo a menos — mas o que vai junto é maior do que uma concessão devolvida.
Quando uma rádio com 41 anos de história, prêmios acumulados e uma audiência que se orgulha de ser fiel fecha as portas com a justificativa de que o digital inviabilizou o modelo, alguma coisa mais séria está sendo jogada fora junto com os equipamentos.
O apresentador Haisem Abaki, do Jornal Eldorado, não deixou a cerimônia do 41º Prêmio APCA passar em branco. No palco, ele deu nome ao problema: “negacionismo digital”. A frase é certeira. Não foi o streaming que matou a Eldorado — foi a incapacidade do Grupo Estado de enxergar que uma rádio com aquela identidade era exatamente o tipo de plataforma que deveria liderar a transição, e não ser sacrificada por ela. “Não utilizar uma rádio como a Rádio Eldorado, que tem identidade, que dá espaço para todas essas artes que estão aqui representadas, para fazer a transformação digital, para mim é um negacionismo digital”, disse ele.
Para Paulo Santos, radialista paraibano que viveu a geração pioneira do FM em Campina Grande e passou quase uma década na adulto-contemporânea Cabo Branco FM em João Pessoa, o diagnóstico é parecido. O rádio que não entrou pela Alexa, pelo Google Home, pelo aplicativo proprietário bem feito — esse rádio perdeu o bonde. Mas isso não é culpa do meio; é culpa de quem administrou o meio como se o mundo tivesse parado em 2005.
O ponto mais importante, e o mais difícil de replicar, é o que o rádio tem que o Spotify não tem e nunca vai ter: companhia de verdade. Não o algoritmo que adivinha o que você quer ouvir — o locutor que fala com você, que reage, que existe. As redes sociais são, no fundo, uma fábrica de dopamina. O rádio, quando funciona direito, é outra coisa: um “estar junto” que só a voz humana em tempo real consegue criar. Esse ativo a Eldorado tinha de sobra.
“O rádio não escuta mais ninguém. Perdemos a via de mão dupla que nos definia”, diz Santos. A interatividade que antes acontecia pelo telefone e hoje poderia ser potencializada por qualquer ferramenta digital foi substituída por uma programação engessada que canta, mas não fala; fala, mas não ouve.
A repercussão do fechamento não foi pequena. O movimento “Fica Eldorado!” levou centenas de pessoas à Avenida Paulista, mobilizou nomes como o vereador Nabil Bonduki e a artista Nina Vogel, e acumulou quase 15 mil assinaturas em petições online. O público não estava pedindo música — estava pedindo curadoria. Estava pedindo alguém que soubesse o que estava fazendo na cabine.
É aí que o Grupo Estado machuca o mercado inteiro. Quando uma operação desse tamanho abre mão de uma rádio premiada, com audiência fiel e cerca de 60 profissionais na folha, ela manda um recado péssimo para todo o setor. Os radialistas que ainda tentam fazer rádio de qualidade no Brasil — especialmente fora do eixo Rio-SP — recebem essa notícia como uma pá de cal no ânimo.
O rádio adulto-contemporâneo morre com o óbito de um dos seus maiores expoentes no Brasil? Se morreu não foi de morte natural. Alguém decidiu que ele não valia mais o esforço. E essa, talvez, seja a parte mais difícil de engolir.
