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A aposta radical da China: US$ 2,7 bi e pesca zero resgatam o Yangtzé

A aposta radical da China: US$ 2,7 bi e pesca zero resgatam o Yangtzé
A aposta radical da China: US$ 2,7 bi e pesca zero resgatam o Yangtzé

Após sete décadas de degradação ambiental e um alarmante colapso de sua biodiversidade, o rio Yangtzé, a espinha dorsal econômica da China, mostra sinais promissores de recuperação. Uma decisão drástica do governo chinês em 2021 — a proibição total da pesca comercial por dez anos em toda a bacia hidrográfica — é apontada como a principal catalisadora dessa reviravolta.

A medida, considerada por muitos especialistas como a “opção nuclear” da conservação, implicou no recolhimento de 111 mil embarcações e o reassentamento de 231 mil pescadores. Para mitigar os impactos socioeconômicos, foram investidos mais de US$ 2,74 bilhões na região do Cinturão Econômico do Yangtzé, demonstrando a escala do compromisso governamental.

Um Colapso Silencioso e a Medida Extrema

Durante décadas, o Yangtzé foi um símbolo do crescimento econômico chinês, mas também um espelho do custo ambiental. A sobrepesca, a poluição industrial, a construção de barragens e a degradação de habitats levaram ao desaparecimento de espécies emblemáticas. O golfinho-do-Yangtzé (Lipotes vexillifer) foi declarado extinto, o peixe-espátula chinês (Psephurus gladius) também desapareceu, e 135 espécies de peixes registradas historicamente não são mais encontradas.

Mesmo com investimentos anteriores que superaram os US$ 300 bilhões em gestão e melhoria da qualidade da água, o declínio persistia. Diante desse cenário, a proibição total da pesca comercial, com fiscalização intensificada pela polícia fluvial e penalidades rigorosas, emergiu como a última esperança para o ecossistema.

A Ciência Confirma a Recuperação

Um estudo recente, conduzido por Fangyuan Xiong e sua equipe e publicado na revista científica “Science” (edição 391, páginas 719-723, 2026), analisou dados entre 2018 e 2023. Os resultados são notáveis: a interrupção da pesca conseguiu frear o declínio contínuo da biodiversidade.

O hidrobiólogo Yushun Chen, da Academia Chinesa de Ciências em Wuhan, que analisou os dados, revelou que a massa total de peixes coletada nas amostras mais do que dobrou no período pós-proibição. Houve também um aumento de 13% no número de espécies registradas. Embora o número total de indivíduos tenha se mantido estável, notou-se um crescimento significativo de espécies de maior porte, como o black Amur bream (Megalobrama terminalis) e o white Amur bream (Parabramis pekinensis), indicando uma reorganização estrutural do ecossistema.

Espécies migratórias, como a língua-delgada (Cynoglossus gracilis), expandiram sua migração para regiões mais a montante. Espécies ameaçadas, incluindo o esturjão-do-Yangtzé (Sinosturia dabryanus), o peixe-sugador chinês (Myxocyprinus asiaticus) e o peixe-tubo (Ochetobius elongatus), mostraram sinais consistentes de recuperação populacional.

O Retorno do Boto Sem Nadadeira

Um dos indicadores mais sensíveis da saúde do Yangtzé é o boto sem nadadeira (Neophocaena asiaeorientalis asiaeorientalis), o único mamífero de água doce remanescente no rio. Sua população cresceu de 445 indivíduos em 2017 para 595 em 2022, um aumento de aproximadamente um terço. Pesquisadores atribuem essa recuperação à maior disponibilidade de peixes, à redução de mortes por colisões com embarcações e à diminuição da captura acidental em redes, além da queda nos níveis de ruído subaquático.

Custo Social e Lições Globais

O professor Steven Cooke, da Carleton University no Canadá, ressalta que, embora os resultados demonstrem a resiliência ecológica, a decisão teve consequências profundas para comunidades e cadeias produtivas. Ele defende que a gestão pesqueira ideal deveria ser contínua e baseada em dados científicos, evitando a necessidade de medidas tão drásticas.

A experiência chinesa oferece uma rara mensagem de esperança em um cenário global de perdas sem precedentes de biodiversidade em sistemas de água doce. Contudo, os cientistas alertam que o progresso pode ser rapidamente revertido se a pesca comercial for retomada sem um planejamento rigoroso e uma gestão contínua de todas as pressões humanas sobre o sistema fluvial.

Ainda assim, o caso do Yangtzé sugere que estratégias semelhantes poderiam ser consideradas em grandes rios como o Mekong e o Amazonas, embora cada contexto exija análise cuidadosa. A lição é clara: decisões políticas fortes podem reverter danos considerados irreversíveis, mas o custo de agir tarde pode ser extremamente alto.

Perguntas Frequentes

Por que a China proibiu a pesca no rio Yangtzé?

A proibição foi decretada devido a sete décadas de sobrepesca, poluição industrial, construção de barragens e degradação de habitats que levaram a um colapso severo da biodiversidade, incluindo a extinção de espécies e o desaparecimento de muitas outras. Medidas anteriores não haviam sido suficientes para reverter o declínio.

Quais foram os resultados da proibição da pesca?

Os primeiros resultados, analisados entre 2018 e 2023, mostram uma recuperação significativa. A massa total de peixes dobrou, o número de espécies aumentou em 13%, e populações de espécies ameaçadas e de maior porte apresentaram crescimento. O boto sem nadadeira, por exemplo, viu sua população crescer em um terço.

Qual foi o custo humano e financeiro da medida?

A proibição levou ao recolhimento de 111 mil embarcações e ao reassentamento de 231 mil pescadores. Para mitigar os impactos socioeconômicos, o governo chinês investiu mais de US$ 2,74 bilhões na região do Cinturão Econômico do Yangtzé.

Essa medida pode ser aplicada em outros grandes rios?

Especialistas sugerem que estratégias semelhantes poderiam ser consideradas em outros grandes rios, como o Mekong e até o Amazonas. No entanto, ressaltam que cada contexto exige uma análise cuidadosa das condições ecológicas, sociais e econômicas para garantir a eficácia e a sustentabilidade de tais iniciativas.

[Movimento PB | MOD: 2.5-FL | REF: 699F949C]