Chefe do CV na PB é ligado a esquema de desvio em Cabedelo

Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, líder da facção criminosa Comando Vermelho na Paraíba, emergiu como figura central em um esquema de desvio de recursos públicos na Prefeitura de Cabedelo, que culminou no afastamento do prefeito Edvaldo Neto (Avante). A investigação da Polícia Federal aponta para um esquema complexo que pode ter desviado até R$ 270 milhões, envolvendo a contratação de pessoas ligadas à facção por meio de empresas terceirizadas, com indicações diretas de Fatoka.
O Elos entre o Crime e a Gestão Pública
A ligação de Fatoka com a administração pública de Cabedelo foi detalhada na decisão do desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB). A investigação revelou que, mesmo foragido no Rio de Janeiro, Fatoka continuava a comandar as atividades do grupo na Paraíba, incluindo a influência direta sobre a prefeitura.
Segundo depoimentos, como o de Ariadna Thalia, conhecida como ‘Arroto de Urubu’, Fatoka emitia ordens que iam desde o controle territorial armado até a interferência em cargos públicos. Documentos internos da prefeitura teriam inclusive a sigla “FTK” para identificar indicações vindas de Fatoka, utilizadas na contratação de pessoal via empresas terceirizadas.
Fraude em Licitações e Lavagem de Dinheiro
O esquema funcionava com a Prefeitura de Cabedelo realizando contratações de serviços terceirizados, como limpeza, através de licitações suspeitas de serem fraudadas ou direcionadas. Empresas como a Lemon eram favorecidas, mesmo quando concorrentes apresentavam propostas melhores. A desclassificação de outras empresas ocorria mediante decisões administrativas e pareceres jurídicos que davam uma falsa aparência de legalidade.
Com os contratos firmados, as empresas terceirizadas serviam como fachada para a contratação de indivíduos indicados pela facção. Os recursos públicos destinados a esses contratos retornavam, total ou parcialmente, ao núcleo político e ao braço do Comando Vermelho na Paraíba, conhecido como “Tropa do Amigão”, por meio de propinas, “folhas paralelas”, saques em espécie e outras práticas de ocultação de valores, configurando possível lavagem de dinheiro.
A Trajetória de Fatoka
Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka, tem um histórico criminal extenso. Seu primeiro registro de prisão data de 2012, quando foi detido por comandar uma facção, promover rebeliões em presídios e ser mandante de homicídios em João Pessoa.
Após cumprir pena de 2012 a 2018, ele fugiu em massa da Penitenciária de Segurança Máxima Doutor Romeu Gonçalves de Abrantes (PB1). Foi recapturado meses depois em Alagoas, mas obteve relaxamento de pena e passou a usar tornozeleira eletrônica. Posteriormente, rompeu o dispositivo e fugiu para o Rio de Janeiro.
Além de homicídio e tráfico de drogas, Fatoka é investigado por aliciar eleitores em Cabedelo durante as eleições de 2024, reforçando sua ligação com o poder público local.
Outros Investigados e Defesas
Além do prefeito afastado Edvaldo Neto, a Polícia Federal investigou outras 12 pessoas. Entre elas, a então secretária de Administração, Josenilda Batista dos Santos, apontada como braço operacional interno da facção. O ex-prefeito Vitor Hugo também foi alvo, sendo considerado o articulador inicial do esquema e responsável por firmar o pacto com a facção.
A sogra do prefeito afastado, Cynthia Cordeiro, que ocupava uma secretaria municipal, também foi citada, mas não respondeu aos contatos. O secretário de João Pessoa, Rougger Guerra, manifestou surpresa e negou qualquer envolvimento, afirmando ter entregado seu cargo na capital.
A empresa Lemon, citada nos contratos, declarou que pauta suas atividades na ética e na qualidade, e que se colocou à disposição para colaborar com as investigações. Sua advogada, que atua na defesa da empresa, afirmou atuar com retidão e lisura.
As defesas dos demais alvos da operação não foram localizadas até o momento da publicação.
