Dentista de famosos alerta sobre estética e defende olhar social

Fábio Bibancos, renomado dentista de celebridades e fundador da ONG Turma do Bem, critica a crescente superficialidade na odontologia moderna, que prioriza procedimentos estéticos em detrimento da saúde bucal básica e do engajamento social. Com quatro décadas de experiência, Bibancos defende que a profissão deve ir além da estética, abraçando a responsabilidade social e o cuidado com as populações mais vulneráveis.
Saúde Bucal no Brasil: Um Cenário Desigual
Dados recentes do Ministério da Saúde revelam um quadro preocupante: quase metade dos jovens e adultos brasileiros sofre com cáries não tratadas. Bibancos aponta que, enquanto a odontologia se volta para procedimentos como Botox e preenchimentos, as necessidades básicas de saúde bucal, especialmente entre os mais pobres, ficam em segundo plano. Ele ressalta que programas como o Brasil Sorridente são importantes, mas insuficientes para cobrir todas as lacunas, especialmente em especialidades e tratamentos de alta complexidade.
A desigualdade social é um fator chave nesse cenário. Bibancos explica que a cárie já não afeta tanto as classes mais altas, graças à fluoretação da água e ao uso de pastas com flúor. Contudo, problemas como apertamento dental, bruxismo e desgaste dos dentes, associados à ansiedade e ao uso intensivo de tecnologia, tornam-se mais prevalentes em todas as camadas sociais, mas agravam-se nos mais pobres, que ainda lidam com a cárie.
Crise na Formação e o Apelo da Estética
O dentista expressa profunda preocupação com a formação de novos profissionais. “Tem dentista se formando sem saber anestesiar”, lamenta, criticando a pressão do mercado para que recém-formados se dediquem a procedimentos estéticos em vez das bases da profissão. Ele descreve uma “loucura da rede social”, onde muitos profissionais buscam pacientes com táticas de marketing agressivas e disseminam fake news, afastando-se do que ele chama de “dentista raiz”.
Bibancos também critica a vulgarização de procedimentos como lentes de contato dentais e harmonização facial. “Vendem um sorriso tão branco que não existe”, afirma, alertando para o desgaste e a perda de dentes naturais em jovens, além do risco de inflamações graves. Ele defende que a estética deve ser aplicada com critério, especialmente em casos de reconstrução para vítimas de violência, e não como um modismo para adolescentes.
Turma do Bem: Impacto Social e Voluntariado
Em contraponto à superficialidade, Fábio Bibancos é um dos fundadores da Turma do Bem, uma organização que reúne mais de 18 mil dentistas voluntários em todo o Brasil e em outros onze países. A ONG realiza anualmente a “megatriagem”, um evento nacional que oferece tratamento odontológico gratuito a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. A edição de 2026 em São Paulo, por exemplo, oferecerá 900 vagas.
A Turma do Bem também estende seu atendimento a mulheres cis e trans vítimas de violência que tiveram a dentição afetada. Bibancos destaca a importância de reconhecer e apoiar profissionais que se dedicam ao impacto social, através de iniciativas como o prêmio “Melhor Dentista do Mundo”.
Odontologia: A Boca como Parte do Corpo
Bibancos defende a integração da saúde bucal à saúde geral. “Se eu pedir um exame de sangue para um paciente, o convênio não paga, mas paga se o médico pedir”, exemplifica a desconexão. Ele lamenta que a boca seja frequentemente vista como separada do corpo, e que as pessoas só procurem o dentista em casos de dor. “O check-up da boca é tão importante quanto o do coração”, enfatiza, lembrando que diversas doenças sistêmicas, como cardiopatias, diabetes e Alzheimer, podem apresentar sinais na cavidade oral.
A perda dentária, segundo ele, mutila o indivíduo, impactando sua capacidade de se alimentar, trabalhar e se relacionar. “Uma pessoa sem dentes […] é absoluta e absurdamente excluída”, conclui, reforçando o papel transformador da odontologia na reintegração social.
